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Para leigos26 de agosto de 2026

A injeção que promete emagrecer sem enjoo — e o que ela ainda não provou

A petrelintida perde menos peso que as canetas já vendidas, mas dá muito menos enjoo — e o estudo que sustenta isso nunca foi publicado numa revista científica.

Está circulando como "a próxima caneta". Chama-se petrelintida e é uma cópia feita em laboratório de um hormônio que o nosso próprio pâncreas produz: a amilina, o sinal que avisa o cérebro de que a refeição já foi suficiente.

A promessa dela mudou no meio do caminho, e entender por quê é o que separa informação de propaganda.


O que se sabe

Num estudo com 493 pessoas, quem tomou a dose mais alta durante 42 semanas teve este resultado:

Perda de até 10,7% do peso — cerca de 10 kg em quem pesa 100 kg. Quem tomou a injeção de mentira (placebo) perdeu 1,7%.

Além disso:

  • Enjoo: apareceu em 19,6% das pessoas — bem menos do que costuma acontecer com as canetas que já existem.
  • Abandono por efeito colateral: praticamente igual ao da injeção de mentira (4,8% contra 4,9%). Esse é o número que a empresa mais gosta de mostrar.

O que NÃO se sabe

  • Ela emagrece menos que as canetas já vendidas. E quem disse isso foi a própria Roche: o presidente da empresa afirmou que quem quer perder 20% ou mais deve procurar os remédios que já estão no mercado.
  • O estudo nunca foi publicado numa revista científica. Até hoje existe só um comunicado da empresa e uma apresentação em congresso. O único estudo dela realmente publicado é bem pequeno, de segurança.
  • Ela nunca foi comparada de frente com os remédios que existem hoje. Comparar números de estudos diferentes não vale como prova.
  • Ninguém sabe o que acontece em 2, 3 ou 5 anos de uso.

Um número que engana

Nesse estudo, vomitaram 3% de quem tomou a droga e 6,2% de quem tomou a injeção de mentira.

Lido rápido, parece que o remédio protege contra vômito. Não protege. É só o acaso de um grupo pequeno de pessoas — e nenhum teste foi feito para provar isso.


Cuidado

A petrelintida não é remédio aprovado em lugar nenhum do mundo. Não tem registro na Anvisa, e não teria como ter: o estudo grande, o que decide se um remédio vira medicamento, ainda nem começou.

Se alguém te oferecer petrelintida hoje — em frasco, "importada", "de pesquisa", "manipulada" —, não é o produto do estudo. É algo sem controle sanitário, sem garantia do que tem dentro e sem ninguém respondendo pelo resultado.

Nenhum brasileiro participou desse estudo: os centros ficaram nos Estados Unidos, na Polônia e na Romênia.


A fonte: comunicado da Roche de 05/03/2026 e dados apresentados no congresso da Associação Americana de Diabetes em junho de 2026. Links: Roche · cobertura do congresso · registro do estudo.

Nada aqui é indicação de tratamento. Quem decide o que serve para você é o seu médico.

Fontes

  1. https://www.roche.com/media/releases/med-cor-2026-03-05
  2. https://www.healio.com/news/endocrinology/20260608/petrelintide-a-novel-amylin-analog-induces-10-weight-loss-very-well-tolerated
  3. https://www.biospace.com/business/roche-insists-amylin-obesity-drug-still-valuable-for-patients-who-dont-want-side-effects
  4. https://clinicaltrials.gov/study/NCT06662539
  5. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42017294/
  6. https://www.globenewswire.com/news-release/2026/08/13/3344209/0/en/zealand-pharma-announces-financial-results-for-the-first-half-of-2026.html