A injeção que promete emagrecer sem enjoo — e o que ela ainda não provou
A petrelintida perde menos peso que as canetas já vendidas, mas dá muito menos enjoo — e o estudo que sustenta isso nunca foi publicado numa revista científica.
Está circulando como "a próxima caneta". Chama-se petrelintida e é uma cópia feita em laboratório de um hormônio que o nosso próprio pâncreas produz: a amilina, o sinal que avisa o cérebro de que a refeição já foi suficiente.
A promessa dela mudou no meio do caminho, e entender por quê é o que separa informação de propaganda.
O que se sabe
Num estudo com 493 pessoas, quem tomou a dose mais alta durante 42 semanas teve este resultado:
Perda de até 10,7% do peso — cerca de 10 kg em quem pesa 100 kg. Quem tomou a injeção de mentira (placebo) perdeu 1,7%.
Além disso:
- Enjoo: apareceu em 19,6% das pessoas — bem menos do que costuma acontecer com as canetas que já existem.
- Abandono por efeito colateral: praticamente igual ao da injeção de mentira (4,8% contra 4,9%). Esse é o número que a empresa mais gosta de mostrar.
O que NÃO se sabe
- Ela emagrece menos que as canetas já vendidas. E quem disse isso foi a própria Roche: o presidente da empresa afirmou que quem quer perder 20% ou mais deve procurar os remédios que já estão no mercado.
- O estudo nunca foi publicado numa revista científica. Até hoje existe só um comunicado da empresa e uma apresentação em congresso. O único estudo dela realmente publicado é bem pequeno, de segurança.
- Ela nunca foi comparada de frente com os remédios que existem hoje. Comparar números de estudos diferentes não vale como prova.
- Ninguém sabe o que acontece em 2, 3 ou 5 anos de uso.
Um número que engana
Nesse estudo, vomitaram 3% de quem tomou a droga e 6,2% de quem tomou a injeção de mentira.
Lido rápido, parece que o remédio protege contra vômito. Não protege. É só o acaso de um grupo pequeno de pessoas — e nenhum teste foi feito para provar isso.
Cuidado
A petrelintida não é remédio aprovado em lugar nenhum do mundo. Não tem registro na Anvisa, e não teria como ter: o estudo grande, o que decide se um remédio vira medicamento, ainda nem começou.
Se alguém te oferecer petrelintida hoje — em frasco, "importada", "de pesquisa", "manipulada" —, não é o produto do estudo. É algo sem controle sanitário, sem garantia do que tem dentro e sem ninguém respondendo pelo resultado.
Nenhum brasileiro participou desse estudo: os centros ficaram nos Estados Unidos, na Polônia e na Romênia.
A fonte: comunicado da Roche de 05/03/2026 e dados apresentados no congresso da Associação Americana de Diabetes em junho de 2026. Links: Roche · cobertura do congresso · registro do estudo.
Nada aqui é indicação de tratamento. Quem decide o que serve para você é o seu médico.
Fontes
- https://www.roche.com/media/releases/med-cor-2026-03-05
- https://www.healio.com/news/endocrinology/20260608/petrelintide-a-novel-amylin-analog-induces-10-weight-loss-very-well-tolerated
- https://www.biospace.com/business/roche-insists-amylin-obesity-drug-still-valuable-for-patients-who-dont-want-side-effects
- https://clinicaltrials.gov/study/NCT06662539
- https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42017294/
- https://www.globenewswire.com/news-release/2026/08/13/3344209/0/en/zealand-pharma-announces-financial-results-for-the-first-half-of-2026.html
