O comprimido que derruba o colesterol ruim pela metade — e o que ainda não se sabe
Os Estados Unidos aprovaram o primeiro comprimido que corta o colesterol ruim pela metade — e ele é um peptídeo; o que ainda não se sabe é se isso evita infarto.
No dia 16 de julho de 2026, a agência de saúde dos Estados Unidos (FDA) aprovou um remédio novo para colesterol chamado enlicitida, vendido como LIPFENDRA. A novidade não é só o efeito — é o formato: é comprimido. Até agora, os remédios dessa família (chamados "inibidores de PCSK9") só existiam em injeção.
E tem um detalhe que interessa a quem acompanha peptídeos: a enlicitida é um peptídeo. É o primeiro peptídeo desse tipo que consegue funcionar sendo engolido, sem ser destruído no caminho pelo estômago.
O que se sabe
No estudo principal, com 2.912 pessoas, quem tomou o comprimido teve o colesterol LDL (o "ruim") caindo 57% em seis meses. Quem tomou placebo teve alta de 3%.
A diferença entre os dois grupos foi de quase 56 pontos percentuais, com resultado estatisticamente sólido (p<0,001).
Sobre efeitos colaterais: foram parecidos com os do placebo — 64% relataram algum efeito no grupo do remédio, contra 62% no grupo do placebo. Em um segundo estudo, com pessoas que têm colesterol alto de origem genética, houve um pouco mais de diarreia e de tontura.
O que ainda NÃO se sabe
Aqui está a parte honesta — e quem escreve isso é a própria fabricante: ainda não se sabe se esse remédio reduz infarto, AVC ou morte.
Ele foi aprovado por baixar o colesterol no exame. Não por ter provado que salva vidas. O estudo que vai responder a essa pergunta tem 14.550 pessoas e só termina em novembro de 2029.
Cuidado com três coisas
- O número de 60%. Você vai ver "reduz até 60%" na imprensa. Esse número veio de uma conta feita depois do estudo. O resultado oficial foi de 56 pontos. Não é a mesma coisa.
- O efeito diminui com o tempo. Em um ano, a diferença média caiu para 47% — porque, na vida real, gente esquece e para de tomar.
- Não é "tomar quando der". A orientação é tomar em jejum, assim que acorda, e esperar 30 minutos para comer. Quem não consegue manter essa rotina perde parte do efeito.
E no Brasil?
Esse comprimido ainda não está aprovado aqui. A liberação, por enquanto, é só nos Estados Unidos. Não existe versão brasileira — e não existe "importação confiável" de um remédio sem registro.
No Brasil, o que há aprovado para essa mesma via são injeções: evolocumabe, alirocumabe e a inclisirana (aplicada a cada seis meses).
Vale também uma nota importante: em 2 de julho de 2026 a ANVISA reforçou que peptídeos famosos na internet — BPC-157, TB-500, GHK-Cu, CJC-1295, ipamorelina — não têm registro no Brasil e, sem registro, "não oferecem qualquer garantia de segurança, origem ou composição".
A leitura da Health Peps
É uma notícia grande e real. Mas é um remédio de colesterol no exame — não (ainda) um remédio de coração protegido. Quem te vender essa diferença como se fosse a mesma coisa está vendendo, não informando.
E nada disso se decide sozinho: colesterol é conversa com médico, com exame na mão.
Fontes
- Estudo principal (CORALreef Lipids) — Navar AM et al., New England Journal of Medicine, 2026
- Aprovação da FDA, 16/07/2026 — comunicado da Merck
- Estudo de desfecho que só termina em 2029 — ClinicalTrials.gov
- ANVISA sobre peptídeos sem registro, 02/07/2026
Este conteúdo é informativo e não substitui consulta, exame ou prescrição médica.
Fontes
- https://www.acc.org/latest-in-cardiology/journal-scans/2026/02/09/18/56/coralreef-lipids
- https://www.merck.com/news/mercks-lipfendra-enlicitide-is-the-first-and-only-once-daily-oral-pcsk9-inhibitor-approved-by-the-u-s-fda-to-reduce-ldl-c-in-adults-with-hypercholesterolemia/
- https://clinicaltrials.gov/study/NCT06008756
- https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/noticias-anvisa/2026/checamos-peptideos-que-prometem-milagres-nao-estao-registrados-na-anvisa
- https://portal.afya.com.br/cardiologia/inclisiran-aprovado-anvisa-brasil-colesterol
