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Para médicos07 de setembro de 2026

Efsitora alfa: o CHMP liberou a insulina semanal no tipo 2 — e deixou o tipo 1 de fora

O parecer positivo do CHMP cobre só o diabetes tipo 2 — e o ensaio no tipo 1 mostra por quê: hipoglicemia grave em 10% dos pacientes contra 3% da insulina diária.

O parecer positivo do CHMP para a efsitora alfa (Onswik) saiu em 25 de junho de 2026. Dois meses depois, em 20 de agosto, o NICE recomendou o uso no NHS britânico — antes mesmo de a MHRA conceder a licença. A manchete que circulou foi limpa: "de 365 para 52 injeções por ano".

O texto regulatório é mais estreito que a manchete. A indicação recomendada pelo CHMP é diabetes mellitus tipo 2 em adultos. O tipo 1 ficou de fora — e o dado que explica isso está publicado desde setembro de 2024.


O estudo

A efsitora alfa é uma insulina basal de aplicação semanal, avaliada no programa de fase 3 QWINT. Os dois braços mais relevantes para a decisão europeia:

QWINT-3 — adultos com DM2 já em uso de insulina basal (n=986, 78 semanas, aberto, treat-to-target, randomização 2:1 contra degludeca diária).

HbA1c: −0,81 pontos percentuais com efsitora vs −0,72 pp com degludeca. Diferença estimada de tratamento: −0,09 pp (IC95% −0,19 a 0,01) — dentro da margem de não inferioridade de 0,4%. Hipoglicemia nível 2 (<54 mg/dL) ou nível 3: 0,84 vs 0,74 eventos/paciente-ano (RR 1,14; IC95% 0,83–1,56; p=0,43). — Philis-Tsimikas A et al. The Lancet 2025;405(10497):2279-2289. PMID 40562047

QWINT-1 — adultos com DM2 sem insulina prévia, em regime de dose fixa (100, 150, 250 ou 400 U/semana), sem titulação diária (n=795, 52 semanas, contra glargina U100).

HbA1c: −1,19 pp vs −1,16 pp. Diferença −0,03 pp (IC95% −0,18 a 0,12). Não inferioridade confirmada; superioridade não demonstrada (p=0,68). Hipoglicemia nível 2/3: 0,50 vs 0,88 eventos/paciente-ano (RR 0,57; IC95% 0,39–0,84). Mediana de ajustes de dose no ano: 2 com efsitora, 8 com glargina. — Rosenstock J et al. N Engl J Med 2025;393(4):325-335. PMID 40548694

No esquema basal-bolus (QWINT-4, n=730, 26 semanas), a redução de HbA1c foi de −1,01 pp com efsitora contra −1,00 pp com glargina U100, com taxas semelhantes de hipoglicemia nível 2/3 (6,6 vs 5,9 eventos/paciente-ano; RR 1,11; IC95% 0,85–1,44; p=0,44). PMID 40562048

O outro lado

O tipo 1 tem ensaio próprio — e o resultado não é o mesmo.

QWINT-5 — adultos com DM1 (n=692, 52 semanas, efsitora + lispro vs degludeca + lispro).

HbA1c: não inferior (diferença estimada 0,052%; IC95% −0,077 a 0,181; p=0,43). Mas hipoglicemia nível 2 ou 3 foi maior com a semanal: 14,03 vs 11,59 eventos/paciente-ano (RR 1,21; IC95% 1,04–1,41; p=0,016), com as taxas mais altas nas semanas 0–12. Hipoglicemia grave: 35 de 343 (10%) com efsitora vs 11 de 349 (3%) com degludeca. — Bergenstal RM et al. The Lancet 2024;404(10458):1132-1142. PMID 39270686

Os próprios autores encerram a interpretação pedindo "avaliação adicional da iniciação e otimização de dose de efsitora em pessoas com diabetes tipo 1". A indicação europeia restrita ao DM2 é coerente com esse dado, não uma formalidade burocrática.

Por que importa

Se o efeito glicêmico é equivalente, o que a efsitora vende é logística: menos aplicações, menos decisões de titulação, menos dependência de terceiro para injetar. Em DM2 estável em basal isolada, isso é um argumento clínico legítimo — e o QWINT-1 mostra que dá para chegar lá com 2 ajustes de dose no ano em vez de 8.

O detalhe que engana

"De 365 para 52 injeções" só vale para quem usa basal isolada.

  • No esquema basal-bolus, o paciente continua aplicando insulina prandial todos os dias. A troca real é de 7 aplicações basais por 1 — não de 365 por 52.
  • Não inferior não é melhor. Em todos os QWINT o desfecho primário é equivalência de HbA1c, com margem de 0,4%. Nenhum deles foi desenhado para desfecho duro: não há dado de evento cardiovascular, mortalidade ou complicação microvascular.
  • A meia-vida longa é a vantagem e o risco na mesma molécula: quando a dose fica alta demais, não há como "pular a de amanhã".

Limitações

  • Desenho aberto (open-label) em todos os ensaios de fase 3, com titulação por algoritmo no braço comparador.
  • Horizonte curto para uma doença crônica: o mais longo é o QWINT-3, com 78 semanas.
  • Transportabilidade: o NICE registrou explicitamente que as pessoas que mais se beneficiariam da insulina semanal — frágeis, com deficiência de destreza manual, cognitiva ou visual, dependentes de cuidador — estavam sub-representadas nos ensaios. O benefício maior é justamente o menos medido.
  • Nenhum ensaio comparou efsitora com icodeca de forma direta.

Grau de evidência

  • A (Forte) para não inferioridade de HbA1c contra insulina basal diária no DM2 — cinco ensaios de fase 3, publicados em NEJM e Lancet, com desfecho consistente.
  • C (Limitada), com sinal de segurança desfavorável, para uso no DM1: eficácia glicêmica equivalente, mas aumento de hipoglicemia nível 2/3 e triplicação da incidência de hipoglicemia grave.
  • D (Experimental) para qualquer alegação de benefício em desfecho cardiovascular ou microvascular — não existe ensaio.

No Brasil

Efsitora não tem registro na Anvisa. Também não está aprovada em nenhuma agência de referência até esta data: o CHMP emitiu parecer positivo em 25/06/2026 e a decisão da Comissão Europeia segue pendente; no FDA, a Lilly confirma que a BLA para DM2 está em análise, sem previsão de decisão.

A insulina semanal com registro brasileiro é outra: a icodeca (Awiqli, Novo Nordisk), aprovada pela Anvisa em 05/03/2025 para DM1 e DM2 — indicação mais ampla que a recomendada pelo CHMP à concorrente. A própria nota da Anvisa adverte que "em pacientes com diabetes mellitus tipo 1, eventos hipoglicêmicos são mais comuns em comparação com a insulina basal diária" e recomenda reservar o uso no DM1 aos casos com benefício clínico claro. Até outubro de 2025, sete meses após o registro, a Awiqli seguia sem previsão de lançamento comercial no país.

WADA: insulinas constam da seção S4.4.2 da Lista Proibida 2026 — proibidas em todos os momentos, dentro e fora de competição. Vale para efsitora, icodeca e qualquer análogo.


Radar de hoje

  • Comparação indireta com a icodeca: MAIC publicado em setembro de 2026 sugere menor taxa de hipoglicemia nível 2/3 (RR 0,436; IC95% 0,241–0,786) e −1,52 kg de peso a favor da efsitora em experientes em basal. Autores: funcionários da Lilly e da Costello Medical. É comparação ajustada entre ensaios distintos — não head-to-head. PMID 42680157
  • A concorrente já levou um CRL: o FDA devolveu a icodeca em 10/07/2024, com pedidos sobre o processo de fabricação e sobre a indicação em DM1, após comitê consultivo concluir que os dados não sustentavam benefício-risco positivo no tipo 1. A Anvisa aprovou as duas indicações oito meses depois.
  • NICE com data marcada: a recomendação saiu em versão final de rascunho; a orientação definitiva está prevista para 22/10/2026, e o uso no NHS ainda depende da licença da MHRA.

Referências

Conteúdo técnico destinado a profissionais habilitados a prescrever; não substitui julgamento clínico individual nem a bula aprovada.

Fontes

  1. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39270686/
  2. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40562047/
  3. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40562048/
  4. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40548694/
  5. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42680157/
  6. https://www.ema.europa.eu/en/medicines/human/EPAR/onswik
  7. https://www.nice.org.uk/guidance/indevelopment/gid-ta11644
  8. https://www.pulsetoday.co.uk/news/clinical-areas/diabetes-endocrinology/nice-approves-weekly-insulin-injection-for-patients-with-type-2-diabetes
  9. https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/medicamentos/novos-medicamentos-e-indicacoes/awiqli-insulina-icodeca-novo-registro
  10. https://www.globenewswire.com/en/news-release/2024/07/10/2911476/0/en/Novo-Nordisk-receives-Complete-Response-Letter-in-the-US-for-once-weekly-basal-insulin-icodec.html
  11. https://medical.lilly.com/us/products/answers/when-will-insulin-efsitora-alfa-become-available-262915
  12. https://vada-testing.org/wp-content/uploads/2026/02/VADA-Prohibited-List-2026-.pdf