← Voltar ao blog
Para médicos31 de agosto de 2026

Elamipretida: a FDA aprovou "mais força" com o ensaio randomizado negativo

Na síndrome de Barth, o trecho randomizado do TAZPOWER falhou nos dois desfechos primários; a aprovação acelerada veio de uma extensão aberta, sem controle, com 8 pacientes.

Quase um ano depois da aprovação acelerada, o estudo confirmatório da elamipretida na síndrome de Barth ainda estava sendo desenhado — o desenho só foi apresentado no Euromit, entre 31/05 e 04/06/2026 — enquanto 33 pacientes já haviam iniciado a terapia, segundo a própria fabricante em 30/04/2026. É o caso-limite do peptídeo aprovado sem desfecho clínico duro, e vale abrir o número por dentro antes de repetir a manchete.

A elamipretida (FORZINITY) é um tetrapeptídeo que se concentra na membrana mitocondrial interna e interage com a cardiolipina. Foi aprovada pela FDA em 19/09/2025 para melhorar a força muscular em adultos e crianças com síndrome de Barth pesando ao menos 30 kg.


O estudo

O TAZPOWER teve 12 homens, de 12 a 35 anos, com Barth confirmada geneticamente, em centro único nos Estados Unidos.

  • Parte 1 (randomizada): crossover duplo-cego contra placebo — 12 semanas de tratamento, 4 de washout, 12 semanas do braço oposto.
  • Desfechos primários: distância no teste de caminhada de 6 minutos e escore total de fadiga (BTHS-SA).
  • Resultado: a bula é literal — a elamipretida "não foi superior ao placebo" nos dois.
  • Força de extensor de joelho (secundária, dinamometria manual): mediana de +4 N com droga contra −5 N com placebo na semana 12, sobre uma mediana basal de 124 N.
  • Parte 2 (extensão aberta, sem controle): é daqui que vem o número da aprovação.

Semana 168 da extensão aberta: mediana de +63 N na força de extensor de joelho (faixa +38 a +78), com n = 8. A bula não publica valor de p para esse desfecho. — FDA, Drug Trials Snapshots: Forzinity, e bula FORZINITY (DailyMed).

O outro lado

O comitê consultivo da FDA votou a favor em 11/10/2024, depois de adiamentos sucessivos e de um histórico travado de submissão. A agência aceitou a força de extensor de joelho como endpoint clínico intermediário dentro da via de aprovação acelerada, com estudo confirmatório exigido em bula.

E o contexto pesa: a síndrome de Barth atinge cerca de 1 em 1.000.000 de nascidos vivos do sexo masculino — algo como 150 pessoas nos Estados Unidos — e 85% das mortes precoces ocorrem até os 5 anos de idade. Um ensaio randomizado de 300 pacientes simplesmente não existe nesse universo. Quem critica a aprovação precisa dizer qual estudo alternativo teria sido possível.

Por que importa

A bula diz "melhorar a força muscular" e o prescritor lê eficácia demonstrada. Não é a mesma coisa.

O detalhe que engana: a frase da bula se apoia em 8 pacientes comparados com eles mesmos ao longo de 168 semanas, em braço único — e essa mesma coorte já havia falhado justamente no único trecho do estudo em que houve sorteio e cegamento. Melhora sustentada em doença progressiva é um sinal defensável; não é prova de efeito. Aprovação acelerada é uma aposta regulatória declarada, com contrapartida cobrada depois — não um selo de benefício clínico verificado.

Como classificamos a evidência

  • Grau C (Limitada) para o ganho de força atribuído à droga: o dado que sustenta a indicação é não controlado, com n de um único dígito.
  • Grau A apenas para o fato regulatório: a aprovação existe, é acelerada e está condicionada a confirmação.

Limitações

  • Nada aqui mede mortalidade, insuficiência cardíaca, arritmia ou hospitalização. O desfecho é intermediário por definição.
  • População estreita: doença geneticamente definida (TAFAZZIN), 12 homens, 11 brancos, um único centro.
  • Transportabilidade: não sustenta uso em sarcopenia, performance esportiva, "saúde mitocondrial" ou longevidade. A substância circula no mercado cinza como SS-31/MTP-131; nenhuma dessas indicações tem ensaio que a ampare.
  • Posologia aprovada: 40 mg por via subcutânea uma vez ao dia para ≥30 kg; 20 mg/dia se eGFR <30 mL/min.
  • Segurança: reação local de administração em 100% dos tratados — eritema 100%, dor 75%, endurecimento 67%, prurido 67%.

No Brasil

A elamipretida não tem registro na Anvisa. Hoje existe apenas com aprovação da FDA. Medicamento registrado no exterior e sem registro aqui depende da via de importação excepcional prevista pela Anvisa, com avaliação caso a caso.

O movimento regulatório que de fato bate na porta do consultório neste momento é outro: a RDC nº 973/2025 e a IN nº 360/2025 puseram os agonistas de GLP-1 — semaglutida, liraglutida, dulaglutida, tirzepatida e lixisenatida — em receita de duas vias com validade de 90 dias, retenção obrigatória na farmácia e escrituração no SNGPC.

Sobre WADA: não conseguimos confirmar menção nominal à elamipretida na Lista Proibida vigente. Como não confirmamos, não afirmamos status.


Conteúdo técnico destinado a profissionais de saúde; não substitui bula, julgamento clínico nem decisão individualizada.

Fontes

  1. https://www.fda.gov/drugs/drug-trials-snapshots/drug-trials-snapshots-forzinity
  2. https://dailymed.nlm.nih.gov/dailymed/lookup.cfm?setid=146bf34c-76f2-48db-ac07-fb29cce2cd75
  3. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38602181/
  4. https://www.prnewswire.com/news-releases/stealth-biotherapeutics-announces-fda-accelerated-approval-of-forzinity-elamipretide-hcl-the-first-therapy-for-progressive-and-life-limiting-ultra-rare-genetic-disease-barth-syndrome-302562058.html
  5. https://www.prnewswire.com/news-releases/stealth-biotherapeutics-provides-commercial-launch-update-and-pipeline-progress-across-mitochondrial-disease-portfolio-302758171.html
  6. https://www.prnewswire.com/news-releases/stealth-biotherapeutics-to-present-updates-on-elamipretide-in-barth-syndrome-and-polg-disease-at-euromit-2026-302779660.html
  7. https://www.fda.gov/drugs/drug-alerts-and-statements/fda-publishes-revised-draft-product-specific-guidances-certain-generic-peptide-products
  8. https://ir.altimmune.com/news-releases/news-release-details/altimmune-initiates-performa-phase-3-trial-pemvidutide-patients
  9. https://site.cff.org.br/noticia/Noticias-gerais/16/01/2026/anvisa-estabelece-novas-regras-para-prescricao-e-dispensacao-de-medicamentos-agonistas-de-glp-1