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Para médicos07 de agosto de 2026

Eloralintida: 20% de peso na Lancet — e o número da tabela que engana

O fase 2 de 48 semanas publicado na Lancet entregou 20% de perda de peso com amilina em monoterapia — e uma linha da tabela de eventos adversos leva o prescritor à conclusão oposta à correta.

A Lancet publicou o fase 2 de 48 semanas da eloralintida (Lilly): 20% de perda de peso com um agonista seletivo do receptor de amilina, em monoterapia. É o maior número já publicado em revista revisada por pares para a classe da amilina isolada — e muda a conversa que tivemos aqui há três semanas, quando a petrelintida chegou com 10,7% e o argumento da tolerabilidade.

Só que a tabela de eventos adversos do próprio artigo tem uma linha que, lida rápido, leva o prescritor à conclusão exatamente oposta à correta.


O estudo

Ensaio fase 2 multicêntrico, duplo-cego, randomizado e controlado por placebo, em 46 centros nos EUA, com 263 participantes (Billings LK et al., Lancet 2025;406(10520):2631-43 · PMID 41207310). Adultos de 18 a 75 anos, IMC ≥30 kg/m² ou ≥27 com comorbidade, sem diabetes tipo 2. Randomização 2:1:1:1:2:1:2 para placebo ou eloralintida 1 mg, 3 mg, 6 mg, 9 mg, ou escalonamentos 6–9 mg e 3–9 mg, por 48 semanas. Basal: idade média 49 anos, peso 109,1 kg, IMC 39,1 kg/m², 78% mulheres, 78% brancos.

Variação percentual de peso em 48 semanas: −20% com 9 mg (IC95% −22,7 a −17,5) e −20% com 6–9 mg (IC95% −22,7 a −17,0), contra −0,4% no placebo (IC95% −2,2 a 1,4).

Dose-resposta limpa nas doses fixas: −9% (1 mg), −12% (3 mg), −18% (6 mg), −20% (9 mg). O escalonamento 3–9 mg entregou −16%.

O custo apareceu na tolerabilidade. Náusea: 11% (1 mg), 13% (3 mg), 64% (6 mg), 33% (9 mg), 54% (6–9 mg), 25% (3–9 mg), contra 14% no placebo. Fadiga chegou a 46% no braço 6–9 mg.

O outro lado

A petrelintida (Roche/Zealand), mesma classe, foi na direção contrária: menos peso, muito menos sintoma. No ZUPREME-1 (NCT06662539, fase 2, 493 randomizados, 42 semanas), −10,7% na maior dose contra −1,7% no placebo (p<0,001), com descontinuação por evento adverso de 4,8% contra 4,9% no placebo e nenhum vômito relatado na maior dose. Nos dados do ADA 2026: náusea 19,6% contra 6,2%, mais de 75% dos eventos gastrointestinais leves, 1,5% de descontinuação por evento GI.

Vista de cima, a classe se ordena assim: a meta-análise em rede de 2026 (Kamrul-Hasan ABM et al., Endocrinol Diabetes Metab 2026;9(3):e70247 · PMID 42175595), com 6 ensaios e N=4.642, coloca amicretina em dose alta (−23,95%) e eloralintida em dose alta (−18,01%) acima da semaglutida 2,4 mg (−11,45%) e da liraglutida 3,0 mg (−6,4%). Os próprios autores fecham com a ressalva que quase nunca acompanha o gráfico quando ele circula: achados preliminares, dados esparsos, certeza baixa.


Por que importa

A leitura fácil — "a amilina é o próximo teto de eficácia" — está errada pelos dois lados. Eloralintida e petrelintida atacam o mesmo receptor e entregam 20% e 10,7%. Isso não é variação de marca: é a demonstração de que, dentro da própria classe, eficácia e tolerabilidade continuam no mesmo eixo. A amilina não desacoplou uma coisa da outra; ela só ofereceu um ponto diferente na mesma curva.

Para o consultório, isso importa mais do que o número de manchete. Um agente de 20% com náusea em metade dos pacientes disputa o mesmo problema de adesão dos GLP-1. Um agente de 10–12% com perfil quase de placebo disputa outro: o paciente que já abandonou uma caneta. São produtos para conversas clínicas distintas — e nenhum dos dois existe ainda.

O detalhe que engana

Na tabela da Lancet, a náusea aparece em 64% com 6 mg e 33% com 9 mg. Lido como curva dose-resposta, isso diz que a dose maior é mais bem tolerada que a menor — o que seria farmacologicamente esquisito e, se virar regra de titulação, clinicamente ruim.

Não é farmacologia: é tamanho de braço. Pela razão de randomização declarada no próprio artigo (2:1:1:1:2:1:2, N=263), o braço de 6 mg tem cerca de 26 pacientes e o de 9 mg cerca de 53 — estimativa a partir da razão publicada, não um número reportado pelos autores. 64% de 26 são aproximadamente 17 pessoas. Meia dúzia de relatos a mais ou a menos move esse percentual em mais de 20 pontos.

A conclusão defensável do estudo é que a náusea sobe com a dose e é atenuada pelo escalonamento (3–9 mg fechou em 25%). A conclusão de que 9 mg incomoda menos que 6 mg não se sustenta em 26 pessoas.

Limitações

  • Nenhuma das duas moléculas tem fase 3 concluída. A fase 3 da petrelintida está apenas planejada para o segundo semestre de 2026, e não há estudo fase 3 registrado no ClinicalTrials.gov até esta data.
  • Comparação cruzada não vale. São 48 contra 42 semanas, placebo de −0,4% contra −1,7%, populações e países diferentes. Colocar 20% e 10,7% lado a lado é retórica, não estatística.
  • Zero head-to-head contra semaglutida ou tirzepatida — para qualquer uma das duas.
  • Zero desfecho duro: nada sobre MACE, mortalidade, hospitalização ou progressão para diabetes.
  • O dado da petrelintida em 42 semanas não é peer-reviewed — saiu por comunicado e congresso. O que existe revisado por pares sobre ela é a fase 1 (Brændholt Olsen M et al., Diabetes Obes Metab 2026;28(7):5915-25 · PMID 42017294): meia-vida de ~10 dias, até 8,6% em 16 semanas.
  • Transportabilidade: IMC 37–39 kg/m², sem diabetes, 78% mulheres e 78% brancos na eloralintida; o ZUPREME-1 rodou nos EUA, Polônia e Romênia. Nenhum centro brasileiro em nenhum dos dois.

Grau de evidência

  • B (Moderada) — perda de peso de curto e médio prazo com agonista seletivo de amilina em monoterapia. Dois fase 2, um deles publicado na Lancet, com dose-resposta coerente.
  • C (Limitada) — a alegação de que a classe tem tolerabilidade superior aos GLP-1. Plausível para a petrelintida, contrariada pela eloralintida em dose alta, e sem nenhuma comparação direta.
  • D (Experimental) — qualquer uso clínico hoje.

No Brasil

Eloralintida e petrelintida não têm registro na Anvisa — nem em nenhuma outra agência reguladora do mundo. São moléculas em fase 2. Não existe caminho legal de prescrição, importação ou manipulação magistral no país.

O cerco regulatório aos peptídeos apertou em 2026:

  • 02/07/2026 — a Anvisa publicou nota afirmando que BPC-157, TB-500, GHK-Cu, CJC-1295 e ipamorelina "não estão regularizados na Anvisa em nenhuma categoria", que não há sequer pedido de registro em análise, e que suplemento alimentar injetável é proibido no Brasil (Instrução Normativa 28/2018). (nota da Anvisa)
  • 23/03/2026 — a Agência interditou a linha de estéreis da HKM Farmácia de Manipulação (Essentia Pharma), em Palhoça/SC, onde encontrou 1.356.488 unidades de injetáveis pré-fabricados sem prescrição individualizada, risco de contaminação biológica e IFA de tirzepatida sem os controles exigidos pela Nota Técnica 200/2025. RE 1.193/2026, publicada no DOU em 26/03/2026. (notícia da Anvisa)

WADA: a Lista Proibida 2026 está em vigor desde 01/01/2026, e a própria WADA informa ter ampliado os exemplos da seção S2 (hormônios peptídicos, fatores de crescimento e miméticos). Não foi possível abrir o PDF oficial nesta apuração para conferência item a item — atleta federado deve checar a molécula diretamente no documento da WADA antes de qualquer uso. (WADA)


Radar

  • ZUPREME-2 fecha em dias. O estudo da petrelintida em sobrepeso/obesidade com diabetes tipo 2 (NCT06926842, 221 participantes, 28 semanas) tem conclusão primária prevista para 13/08/2026. É o teste que dirá se a amilina isolada segura glicemia, e não só peso.
  • A aposta real é combinação. A Roche registrou um fase 2 de petrelintida + enicepatida (RO7795068), 486 participantes, início previsto para 30/09/2026 (NCT07589686). A própria fabricante já trata a monoterapia como base, não como produto final.
  • A classe vista de longe. Revisão de 2026 em Peptides (Bailey CJ, Flatt PR, Conlon JM · PMID 41747885) mapeia eloralintida, petrelintida, Met-233 e AZD6234 e levanta possível benefício em doença hepática gordurosa, complicação renal do diabetes e hipertensão resistente. Tudo ainda hipótese.

Referências

Conteúdo técnico para profissionais de saúde; não é prescrição nem recomendação de uso de substância sem registro sanitário.

Fontes

  1. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41207310/
  2. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42175595/
  3. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42017294/
  4. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41747885/
  5. https://www.roche.com/media/releases/med-cor-2026-03-05
  6. https://www.zealandpharma.com/pipeline/petrelintide/
  7. https://clinicaltrials.gov/study/NCT06662539
  8. https://clinicaltrials.gov/study/NCT06926842
  9. https://clinicaltrials.gov/study/NCT07589686
  10. https://www.fiercebiotech.com/biotech/ada-tolerability-not-be-underappreciated-roche-zealands-amylin-obesity-prospect
  11. https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/noticias-anvisa/2026/checamos-peptideos-que-prometem-milagres-nao-estao-registrados-na-anvisa
  12. https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/noticias-anvisa/2026/anvisa-encontra-mais-de-1-milhao-produtos-irregulares-em-farmacia-de-manipulacao-em-sc
  13. https://www.wada-ama.org/en/news/wadas-2026-prohibited-list-now-force