Saiu o primeiro comprimido que faz o que a injeção do colesterol fazia — e o que ele ainda não provou
O novo comprimido derruba 57% do colesterol ruim, mas ainda não mostrou que evita infarto — e não está aprovado no Brasil.
Em 16 de julho de 2026 os Estados Unidos aprovaram um remédio novo para colesterol chamado enlicitida (nome comercial LIPFENDRA). Ele é o primeiro comprimido de uma família de medicamentos que, até agora, só existia em injeção — e injeção cara.
A notícia é boa. Mas ela tem duas metades, e quase toda a divulgação contou só a primeira.
O que se sabe
No estudo principal, com 2.909 pessoas que já tomavam estatina (o remédio comum de colesterol), o colesterol LDL — o "ruim" — caiu bastante:
−57% em 24 semanas com o comprimido, contra +3% em quem tomou placebo.
Os efeitos colaterais foram parecidos nos dois grupos. Um comprimido por dia, 20 mg.
- Onde foi publicado: revista New England Journal of Medicine, 2026.
- Quem fez: pesquisadores independentes, com patrocínio da fabricante (padrão nesse tipo de estudo).
O que NÃO se sabe
Se ele evita infarto e AVC.
Parece a mesma coisa que baixar colesterol, mas não é. Baixar o número do exame e evitar o evento são duas perguntas diferentes — e só a segunda é a que importa de verdade para quem toma o remédio.
O estudo que vai responder essa pergunta existe, tem 14.550 pessoas, e só termina em novembro de 2031. Até lá, ninguém — nem o fabricante — pode afirmar que o comprimido protege o coração. O próprio material da empresa diz isso com todas as letras.
O detalhe que engana
Um remédio parecido, o evolocumabe (injetável), já foi testado exatamente para essa pergunta, com 27 mil pacientes:
Baixou 59% do colesterol. O resultado em infartos e AVCs foi real, mas modesto: caiu de 11,3% para 9,8% em pouco mais de dois anos.
Ou seja: cair 57% no exame não significa cortar o risco pela metade. O ganho existe, é menor do que a manchete sugere, e leva anos para aparecer.
Cuidado
- Não está aprovado no Brasil. Até hoje, 28/08/2026, não há registro na Anvisa. A liberação é só nos Estados Unidos — então qualquer oferta do produto aqui é irregular.
- Nada disso se compra pela internet. Em 02/07/2026 a Anvisa avisou que peptídeos injetáveis vendidos em redes sociais (GHK-Cu, BPC-157, TB-500, CJC-1295, ipamorelina) são irregulares e não têm garantia de composição nem de origem.
- Quem decide é o seu médico. Se você precisa baixar colesterol, e com o quê, depende dos seus exames e do seu risco — não de uma notícia.
Resumindo
É uma boa notícia de conveniência: comprimido no lugar de injeção, e isso muda muita coisa para quem não consegue manter um tratamento injetável. E é uma promessa ainda em aberto: proteger o coração. As duas coisas são verdade ao mesmo tempo.
Este conteúdo é informativo e não substitui a avaliação de um profissional de saúde.
Fontes
- https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41879224/
- https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28304224/
- https://www.merck.com/news/mercks-lipfendra-enlicitide-is-the-first-and-only-once-daily-oral-pcsk9-inhibitor-approved-by-the-u-s-fda-to-reduce-ldl-c-in-adults-with-hypercholesterolemia/
- https://www.tctmd.com/news/fda-approves-enlicitide-oral-pcsk9-inhibitor-ldl-lowering
- https://www.jornaldealagoas.com.br/ciencia/2026/07/03/954-anvisa-alerta-que-peptideos-injetaveis-vendidos-na-internet-sao-irregulares-no-brasil
- https://www.centerwatch.com/clinical-trials/listings/NCT06008756/enlicitide-decanoate-mk-0616-oral-pcsk9-inhibitor-cardiovascular-outcomes-study-mk-0616-015-coralreef-outcomes
