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Para médicos06 de outubro de 2026

GHK-Cu: a Anvisa mandou apreender a ampola de 70 mg — e o único ensaio humano com número testou creme

A Anvisa determinou a apreensão do GHK-Cu injetável de 70 mg; a única evidência humana com números é tópica, vem de um ensaio com 40 mulheres e testou um sérum formulado, não o peptídeo isolado.

Saiu no Diário Oficial de 3 de outubro de 2026 a resolução que determina a apreensão e proíbe a comercialização, distribuição, fabricação, propaganda, transporte e uso de um conjunto de peptídeos vendidos na internet como "produto de pesquisa". Entre eles, com nome e dose, o GLOW GHK-CU 70 mg — injetável.

É a primeira vez que o peptídeo de cobre aparece nominalmente numa lista de apreensão no Brasil. E isso obriga a uma pergunta desconfortável para quem prescreve: onde exatamente está a evidência do GHK-Cu em seres humanos?

A resposta curta: em creme. Num único ensaio controlado. Com 40 mulheres. Com um produto que não era GHK-Cu puro.


O estudo

Volume da ruga: −55,8% vs veículo (p<0,001). Contra comparador ativo (Matrixyl 3000): −31,6% de redução adicional (p=0,004). Profundidade da ruga contra esse mesmo ativo: −23,4%, p=0,0577 — não significativo. — Badenhorst T, Bolke L, Merrilees M, Svirskis D, Wu Z. Journal of Aging Science 2016;4(3):1000166.

Desenho, em detalhe:

  • População: 40 mulheres, 40 a 65 anos.
  • Desenho: randomizado, duplo-cego, split-face (cada hemiface recebe um produto), 8 semanas.
  • Intervenção: sérum de GHK-Cu com nanocarreador, 2x/dia na hemiface direita; na esquerda, Matrixyl 3000 (n=19) ou veículo-controle (n=20).
  • Desfecho: parâmetros de ruga por imagem 3D (sistema PRIMOS), em basal, 4 e 8 semanas.
  • Tolerância: 39 de 40 participantes sem reação; uma com reação cutânea leve, resolvida sem intervenção.
  • Braço in vitro: fibroblastos dérmicos humanos adultos expostos a GHK-Cu em 0,01, 1 e 100 nM — note a ordem de grandeza, e compare com uma ampola de 70 mg.

O outro lado

O texto mais citado do GHK-Cu não é um ensaio: é uma revisão narrativa. Ela afirma que 31,2% dos genes humanos alteram expressão em ≥50% sob ação do GHK (59% para cima, 41% para baixo).

  • Quem assina: Loren Pickart, que isolou o GHK-Cu do plasma humano em 1973 e é titular de patente sobre o composto (US 5.164.367), com Anna Margolina.
  • O que a revisão lista como "estudos clínicos": ensaios de eficácia cosmética — creme facial em 71 mulheres por 12 semanas, creme para área dos olhos em 41 mulheres por 12 semanas, aplicação em pele de coxa comparada a vitamina C e ácido retinoico. Nenhum desfecho clínico de doença.
  • Declaração de conflito de interesse no artigo: nenhum declarado; sem financiamento externo declarado.

Referência: Pickart L, Margolina A. Int J Mol Sci 2018;19(7):1987 (PMID 29986520).


Por que importa

O produto apreendido é um injetável de 70 mg. Não existe ensaio clínico humano publicado de GHK-Cu por via injetável — nem de eficácia, nem de segurança, nem de farmacocinética. A evidência disponível é tópica, e evidência tópica não transporta para via parenteral.

Com o GHK-Cu isso é particularmente delicado por um motivo mecanístico: o peptídeo é, por desenho, um carreador de cobre — ele existe justamente para entregar cobre dentro da célula com a redox do metal silenciada. Um ensaio de creme com desfecho de imagem 3D não mede sobrecarga de cobre, cuprúria, ceruloplasmina ou função hepática. Nada no pacote de evidência tópica responde o que 70 mg injetados fazem.

O detalhe que engana

O número de vitrine (−55,8%) é contra veículo. Quando o comparador foi outro peptídeo cosmético, o desfecho mais palpável para a paciente — profundidade da ruga — deu p=0,0577, ou seja, não alcançou significância. O único confronto com ativo, no desfecho que a paciente percebe, foi negativo.

Dois agravantes de leitura:

  • Financiamento: o estudo foi financiado pela Snowberry New Zealand Ltd, fabricante do sérum testado (em colaboração com a Callaghan Innovation, grant ENDU1101). O artigo declara que a empresa não participou da coleta, análise ou escrita.
  • Rastreabilidade: o artigo circula com DOI da editora (10.4172 — Walsh Medical Media) e não localizamos PMID para ele (consulta em 6/10/2026).

Limitações

  • n=40, 8 semanas, centro único, desfecho de imagem e não clínico.
  • O produto testado era um sérum formulado com nanocarreador — o efeito não é atribuível ao peptídeo isolado.
  • Transportabilidade: nada nesse ensaio sustenta alegação injetável, sistêmica, nem alegação de cicatrização, regeneração tendínea, pós-operatório ou crescimento capilar.
  • Ausência não é prova de dano, mas também não é prova de segurança: no injetável, o que existe é ausência de dado.

Grau de evidência (honesto):

  • GHK-Cu tópico, rugas/cosmético — C (Limitada): um RCT pequeno, produto formulado, patrocinado, desfecho de imagem.
  • GHK-Cu injetável, qualquer indicação — D (Experimental): zero ensaio humano publicado.

No Brasil

A Anvisa já havia citado o GHK-CU pelo nome, ao lado de BPC-157, TB-500, CJC-1295 e ipamorelina, em comunicado de 2 de julho de 2026:

"alguns peptídeos injetáveis NÃO estão regularizados na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em nenhuma categoria — alimento, medicamento, cosmético, suplemento alimentar —, ou seja, são ILEGAIS para qualquer uso em saúde, inclusive estético."

E completa: por não terem registro, "também NÃO oferecem qualquer garantia de segurança, origem ou composição".

Em 3 de outubro de 2026 veio a apreensão nominal do GLOW GHK-CU 70 mg, junto de tirzepatida e retatrutida sem registro, NAD+ e uma combinação rotulada "PC-157 & TB-500". A justificativa da Agência: os produtos eram anunciados como destinados a pesquisa, mas havia indícios de potencial uso humano, e são de fabricantes sem registro, notificação ou cadastro.

WADA

O GHK-Cu não aparece nominalmente na Lista Proibida 2026 (vigente desde 1º/1/2026). A leitura correta é outra: a classe S0 (Substâncias Não Aprovadas) proíbe, em todos os momentos, "qualquer substância farmacológica que não seja abordada por nenhuma das seções subsequentes da Lista e sem aprovação atual por qualquer autoridade reguladora de saúde governamental para uso terapêutico humano". É exatamente ali que o BPC-157 está citado por nome. Um GHK-Cu injetável sem registro em nenhuma categoria se encaixa nesse critério.


Referências

  • Badenhorst T, Bolke L, Merrilees M, Svirskis D, Wu Z. Effects of GHK-Cu on MMP and TIMP Expression, Collagen and Elastin Production, and Facial Wrinkle Parameters. J Aging Sci 2016;4(3):1000166. DOI 10.4172/2329-8847.1000166
  • Pickart L, Margolina A. Regenerative and Protective Actions of the GHK-Cu Peptide in the Light of the New Gene Data. Int J Mol Sci 2018;19(7):1987. PMID 29986520
  • Anvisa. "Checamos: peptídeos que prometem milagres NÃO estão registrados na Anvisa", 2/7/2026.
  • Poder360. "Anvisa proíbe canetas de tirzepatida e retatrutida sem registro" (DOU de 3/10/2026).
  • WADA. Lista Proibida 2026, seções S0 e S2.2.1.

Conteúdo técnico destinado a profissionais de saúde; não é prescrição nem recomendação de uso, e não substitui a avaliação clínica individual.

Fontes

  1. https://www.walshmedicalmedia.com/open-access/effects-of-ghkcu-on-mmp-and-timp-expression-collagen-and-elastin-production-and-facial-wrinkle-parameters-2329-8847-1000166.pdf
  2. https://www.mdpi.com/1422-0067/19/7/1987
  3. https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/noticias-anvisa/2026/checamos-peptideos-que-prometem-milagres-nao-estao-registrados-na-anvisa
  4. https://www.poder360.com.br/poder-saude/anvisa-proibe-canetas-de-tirzepatida-e-retatrutida-sem-registro/
  5. https://antidopping.hu/editor_up/2026/Tiltolista/WADA_Prohibited_list_2026.pdf
  6. https://www.prnewswire.com/news-releases/lillys-eloratzp-combination-of-eloralintide-and-tirzepatide-delivered-greater-weight-loss-and-a1c-reduction-vs-tirzepatide-15-mg-in-adults-with-obesity-and-type-2-diabetes-302894480.html
  7. https://news.abbvie.com/2026-09-30-AbbVie-Presents-Detailed-Phase-1-Data-for-ABBV-295,-a-Long-Acting-Amylin-Analog,-Demonstrating-Favorable-Tolerability-and-Pharmacokinetic-Profile-at-EASD-2026