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Para médicos18 de setembro de 2026

Glepaglutida: a Europa disse sim hoje — com o mesmo ensaio que a FDA recusou

O CHMP recomendou hoje a aprovação da glepaglutida na síndrome do intestino curto usando o mesmo fase 3 que a FDA considerou insuficiente em 2024 — e o número que circula não é o efeito da droga.

Nesta quinta-feira, 18 de setembro de 2026, o CHMP — comitê de medicamentos humanos da agência europeia — emitiu opinião positiva para o Zeydovio (glepaglutida) no tratamento da síndrome do intestino curto (SIC) com falência intestinal em adultos. É descrito pela própria fabricante como o primeiro avanço regulatório relevante na doença na Europa em mais de uma década. O detalhe desconfortável, e que quase não aparece na cobertura: o dossiê é essencialmente o mesmo que a FDA recusou em dezembro de 2024.

O estudo

O pivô é o EASE-1, fase 3 randomizado, duplo-cego e controlado por placebo, com 106 pacientes com SIC dependentes de nutrição parenteral (NP), publicado em Gastroenterology em 2025.

Glepaglutida 10 mg 2x/semana: redução de 5,13 L/semana no volume de NP, contra 2,85 L/semana no placebo, em 24 semanas — p = 0,0039. (Jeppesen PB et al., Gastroenterology 2025;168(4):701-713; PMID 39708985)

Desfechos de apoio citados no comunicado do CHMP:

  • Resposta ≥20% de redução de NP: 65,7% com glepaglutida vs 38,9% com placebo.
  • Ganho de ≥1 dia/semana livre de NP: 51,4% vs 19,4%.
  • Desmame completo da NP: 14% (n=5) no braço 2x/semana; 0% no placebo.
  • EASE-4 (mecanístico), semana 52: redução média de 800 mL/dia de volume de NP (p=0,0106) e de 866 kJ/dia no conteúdo energético (p=0,0103).

O outro lado

A FDA olhou esse mesmo corpo de evidência e respondeu com Complete Response Letter em 19/12/2024. A agência afirmou que o pedido não atendia aos requisitos de evidência substancial para estabelecer eficácia e segurança da dose a ser comercializada, e recomendou um ensaio clínico adicional.

Dois pontos merecem destaque na leitura dessa recusa:

  • Não houve alegação de sinal de segurança. O problema apontado foi de prova de eficácia na dose pretendida, não de risco.
  • A empresa discordou publicamente, afirmando manter confiança em evidência "robusta e convincente", e seguiu com a submissão europeia em 2025 — exatamente o caminho que desembocou na opinião de hoje.

Por que importa

Análogos de GLP-2 de ação longa são, hoje, a única classe farmacológica que efetivamente retira litros de nutrição parenteral do paciente com falência intestinal. O padrão disponível é a teduglutida, de aplicação diária. Um análogo de duas aplicações semanais, em autoinjetor pronto para uso, não é conveniência cosmética: é a diferença entre 365 e 104 punções por ano em alguém que já passa horas por dia conectado a uma bomba.

O detalhe que engana

Os 5,13 L não são o efeito do medicamento. Esse número é a queda média dentro do grupo, medida a partir do basal. O grupo placebo caiu 2,85 L sozinho — porque o próprio protocolo ajusta o volume de NP conforme o estado de hidratação do paciente. O efeito atribuível à droga é a diferença entre os grupos: cerca de 2,3 L/semana, menos da metade do número que vai circular nos materiais promocionais.

E há um segundo detalhe, mais revelador: o braço de 1x/semana reduziu 3,13 L/semana e não atingiu significância estatística. Mesma molécula, metade da frequência, e o efeito se dissolve. É precisamente esse tipo de fragilidade dose-resposta que sustenta a objeção da FDA sobre "a dose a ser comercializada".


Limitações

  • Um único fase 3, n=106, 24 semanas de desfecho primário — em uma doença rara, com população heterogênea (estoma vs cólon em continuidade).
  • Autonomia enteral foi minoria: cinco pacientes. O desfecho que o paciente realmente quer — largar a NP de vez — segue sendo exceção, não regra.
  • Opinião do CHMP não é aprovação. A decisão da Comissão Europeia é esperada em aproximadamente 67 dias a partir da opinião.
  • Zero transportabilidade para uso off-label. A população estudada vive de nutrição parenteral por falência intestinal. Nada aqui apoia GLP-2 para "saúde intestinal", intestino permeável, recuperação esportiva ou qualquer uso em quem se alimenta por via oral.

Gradação de evidência: B (moderada). O efeito é real, biologicamente plausível e estatisticamente robusto no braço 2x/semana — mas sem replicação independente, e com um dos dois braços de dose falhando. A confirmatória ainda está correndo.

No Brasil

A glepaglutida não tem registro na ANVISA — não localizamos registro nem indicação aprovada no país até esta data.

O único análogo de GLP-2 registrado no Brasil para SIC é a teduglutida (Revestive, Takeda). A ANVISA publicou em 19/07/2021 a ampliação de uso para a população pediátrica a partir de 1 ano de idade, com a ressalva expressa de que não é recomendado para pacientes abaixo de 10 kg, por características de dose e apresentação comercial disponíveis no país.

WADA: não se aplica — na classe S2 da Lista Proibida (hormônios peptídicos, fatores de crescimento e miméticos), que cobre EPO, GH e liberadores, gonadotrofinas e IGF-1, não constam análogos de GLP-2.


Conteúdo técnico destinado a profissionais de saúde; não substitui julgamento clínico nem bula, e não constitui recomendação de prescrição.

Fontes

  1. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39708985/
  2. https://www.globenewswire.com/news-release/2026/09/18/3364558/0/en/zealand-pharma-receives-positive-chmp-opinion-for-zeydovio-glepaglutide-for-the-treatment-of-short-bowel-syndrome.html
  3. https://www.hcplive.com/view/fda-issues-crl-glepaglutide-short-bowel-syndrome-cites-insufficient-evidence
  4. https://www.zealandpharma.com/pipeline/glepaglutide/
  5. https://www.sec.gov/Archives/edgar/data/1446847/000110465926091625/tm2622244d1_ex99-1.htm
  6. https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/medicamentos/novos-medicamentos-e-indicacoes/revestive-r-teduglutida-ampliacao-de-uso
  7. https://www.hcplive.com/view/apraglutide-meets-primary-endpoint-parenteral-support-reduction-phase-3-stars-trial