A Europa aprovou hoje um remédio que os EUA tinham recusado
Um injetável para quem se alimenta por veia foi recomendado hoje na Europa com os mesmos dados que a agência americana considerou insuficientes — e o número que vai circular não é o efeito do remédio.
Saiu hoje, 18 de setembro de 2026, uma recomendação de aprovação na Europa para a glepaglutida, um medicamento injetável para quem tem síndrome do intestino curto: pessoas que perderam boa parte do intestino e precisam receber alimento direto na veia, todo dia, por várias horas. O mesmo conjunto de dados já tinha sido recusado pela agência americana em 2024.
O que se sabe
O estudo principal acompanhou 106 pacientes por 24 semanas.
Quem tomou a injeção duas vezes por semana reduziu o volume de alimentação na veia em média 5,13 litros por semana. Quem tomou placebo reduziu 2,85 litros.
Outros achados:
- Cinco pessoas conseguiram parar completamente a alimentação na veia. No grupo placebo, nenhuma.
- Cerca de metade conseguiu ganhar pelo menos um dia por semana livre do soro, contra menos de um quinto no placebo.
O que engana no número
Os 5,13 litros não são o efeito do remédio. Boa parte dessa queda aconteceu também no grupo que tomou placebo, porque o próprio acompanhamento do estudo vai ajustando a alimentação na veia conforme o paciente melhora a hidratação.
A diferença que dá para atribuir ao medicamento é de cerca de 2,3 litros por semana. É um ganho real — mas é menos da metade do número que vai aparecer nas manchetes.
O que não se sabe
- É um estudo só, com pouca gente, e de 24 semanas. Não sabemos o que acontece em anos de uso.
- Quando testaram a injeção uma vez por semana em vez de duas, o resultado não se sustentou. A mesma substância, com metade da frequência, perdeu o efeito.
- Largar de vez a alimentação na veia aconteceu com poucos pacientes.
- A agência americana, olhando exatamente os mesmos dados, disse que ainda não era prova suficiente e pediu um estudo novo. Esse estudo começou em janeiro de 2026 e está em andamento.
Cuidado
Este é um remédio hospitalar para uma doença grave e rara, de quem se alimenta por veia. Não tem qualquer relação com "saúde intestinal", intestino permeável, emagrecimento, desempenho ou suplemento — e não existe evidência apoiando esse tipo de uso.
A decisão europeia também ainda não é final: por enquanto é a recomendação de um comitê técnico. A aprovação formal deve sair em cerca de dois meses.
No Brasil
A glepaglutida não tem registro na ANVISA. O remédio dessa mesma família disponível aqui é a teduglutida (Revestive), que é aplicado todos os dias e teve o uso ampliado para crianças a partir de 1 ano em 2021.
Informação de caráter educativo. Não é indicação de tratamento — decisões sobre medicamentos são do seu médico.
Fontes
- https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39708985/
- https://www.globenewswire.com/news-release/2026/09/18/3364558/0/en/zealand-pharma-receives-positive-chmp-opinion-for-zeydovio-glepaglutide-for-the-treatment-of-short-bowel-syndrome.html
- https://www.hcplive.com/view/fda-issues-crl-glepaglutide-short-bowel-syndrome-cites-insufficient-evidence
- https://www.zealandpharma.com/pipeline/glepaglutide/
- https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/medicamentos/novos-medicamentos-e-indicacoes/revestive-r-teduglutida-ampliacao-de-uso
