A injeção que emagrece quase 30% — e que ninguém pode comprar ainda
A retatrutida fez pessoas perderem até 28% do peso em quatro estudos grandes, mas nenhum resultado saiu em revista científica e a Anvisa avisa que o produto não existe legalmente.
No dia 23 de julho de 2026, a farmacêutica Eli Lilly divulgou os resultados de mais dois estudos grandes com a retatrutida e disse que vai pedir a aprovação nos Estados Unidos no começo de 2027.
No dia seguinte, 24 de julho, a Anvisa publicou um aviso oficial: a retatrutida não está aprovada em nenhum lugar do mundo — e a empresa nem chegou a pedir o registro, nem aqui nem lá fora.
As duas notícias são verdadeiras ao mesmo tempo. Vale entender por quê.
O que se sabe
Foram quatro estudos, com cerca de 5.885 pessoas no total, comparando a retatrutida com placebo (uma injeção sem remédio, para servir de referência).
- Peso: no maior deles, com 2.339 pessoas ao longo de 80 semanas, quem tomou a dose mais alta perdeu em média 28,3% do peso. Quem tomou placebo perdeu 2,2%.
- Diabetes: em pessoas com diabetes tipo 2, a perda foi de 20,8% e a glicemia média (o exame de HbA1c) caiu 1,6 ponto.
- Coração: em pessoas com obesidade grave e doença cardíaca, além do peso caíram os triglicerídeos, o colesterol e a pressão arterial.
Na dose mais alta do estudo principal: 28,3% de perda de peso, contra 2,2% no grupo placebo. Fonte: comunicado da Eli Lilly, 21/05/2026.
O que ainda NÃO se sabe
Aqui está a parte que quase ninguém conta.
- Nenhum desses resultados foi publicado em revista científica. Todos saíram em comunicado da própria empresa que fabrica o remédio — sem os detalhes que outros cientistas usam para conferir a conta. O único estudo publicado de verdade é bem menor, com 338 pessoas.
- Não se sabe se o remédio evita infarto e AVC. Os estudos mediram fatores de risco (pressão, colesterol), não os eventos em si.
- Não se sabe o que acontece depois que a pessoa para de tomar.
Cuidado
Os efeitos colaterais não são pequenos, e aumentam junto com a dose.
- Enjoo: 42% das pessoas na dose alta, contra 15% no placebo.
- Vômito: 25%, contra 5% no placebo.
- Abandono do tratamento: em um dos estudos, quase 1 em cada 5 pessoas parou por causa dos efeitos colaterais.
- Alteração de sensibilidade na pele (formigamento, dormência): em até 21% dos tratados, contra menos de 1% no placebo.
E o ponto mais importante de todos: qualquer "retatrutida" à venda hoje no Brasil é ilegal. Não existe versão aprovada em lugar nenhum do planeta, não há como manipular legalmente, e o que circula vem de sites irregulares e é apreendido na fronteira como contrabando. Ninguém sabe o que tem dentro desses frascos — nem se é a substância certa, nem a dose, nem a pureza.
E aquele "30%" que você viu na internet?
Esse número existe, mas não é o resultado do estudo.
Ele vem de um grupo menor — 532 pessoas com obesidade mais grave — acompanhado por mais tempo, até 104 semanas. O resultado do estudo inteiro, com todo mundo e no prazo previsto, foi 28,3%.
Este conteúdo é informativo e não substitui a consulta com seu médico. Nenhum tratamento deve ser iniciado por conta própria.
Fontes
- https://investor.lilly.com/news-releases/news-release-details/lillys-triple-agonist-retatrutide-successful-two-additional
- https://www.prnewswire.com/news-releases/lillys-triple-agonist-retatrutide-delivered-powerful-weight-loss-in-pivotal-phase-3-obesity-trial-302778859.html
- https://investor.lilly.com/news-releases/news-release-details/lillys-triple-agonist-retatrutide-delivered-weight-loss-average
- https://www.ajmc.com/view/retatrutide-achieves-up-to-30-3-average-weight-loss-in-phase-3-triumph-1-trial
- https://agenciagov.ebc.com.br/noticias/202607/retatrutida-ainda-nao-esta-aprovada-para-uso-em-nenhum-lugar-do-mundo
- https://doi.org/10.1056/NEJMoa2301972
- https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37366315/
