Passou no estudo, barrado na fábrica: o tratamento que a agência recusou sem questionar o resultado
Um tratamento radioativo segurou o tumor por 23,9 meses contra 14,1 do comprimido — e mesmo assim o FDA recusou o registro, por problema de fábrica, não de eficácia.
Existe um tipo de tratamento de câncer que funciona como carta registrada: uma molécula pequena procura o tumor, se gruda nele e leva junto uma dose de radiação. A radiação age ali, perto do alvo. É assim que se trata um câncer raro do intestino e do pâncreas, chamado tumor neuroendócrino.
Em 2 de julho de 2026, uma das revistas médicas mais respeitadas do mundo, a The Lancet, publicou o resultado de um desses tratamentos: o lutécio-177 edotreotida. Cinco semanas depois, a agência americana de medicamentos recusou o registro dele. As duas coisas são verdade ao mesmo tempo — e a explicação é mais interessante do que parece.
O que o estudo mostrou
Foram 309 pacientes, sorteados entre dois tratamentos: o radioativo ou um comprimido já usado nesse tipo de tumor.
Quem recebeu o radioativo ficou em média 23,9 meses sem a doença piorar, contra 14,1 meses de quem tomou o comprimido.
Outros achados:
- O tumor encolheu em cerca de 22% das pessoas do grupo radioativo, contra 4% do outro grupo.
- Menos efeito colateral grave: 18% contra 40%.
- Menos gente precisou parar o tratamento por causa dos efeitos: 1,8% contra 15,2%.
O que ainda não se sabe
Se as pessoas vivem mais. Até o momento da análise, a sobrevida média foi de 63,4 meses no grupo radioativo contra 58,7 no outro — uma diferença que ainda pode ser obra do acaso. Os pesquisadores calculam isso com um número chamado valor de p; aqui ele deu 0,206, e por convenção só se considera conclusivo abaixo de 0,05.
Segurar o tumor por mais tempo é um resultado bom e importante. Mas não é a mesma coisa que viver mais tempo, e quem promete as duas coisas está indo além do que o estudo mostrou.
O cuidado
Em 10 de agosto de 2026, o FDA — a agência que aprova medicamentos nos Estados Unidos — recusou o registro desse tratamento.
E aqui está o detalhe que quase nunca é contado direito: a recusa não foi por causa do resultado nem da segurança. Foi por problemas de fabricação e por pendências na inspeção de uma fábrica terceirizada. A própria agência colocou por escrito que não tinha objeção aos dados clínicos.
Faz sentido quando se entende o que é esse remédio. Ele é radioativo e perde força rápido: não dá para estocar na prateleira. Cada dose é fabricada e transportada correndo contra o relógio. Se a fábrica não passa na inspeção, o remédio não chega — mesmo estando clinicamente certo.
No Brasil
Esse tratamento não está aprovado pela Anvisa nem nos Estados Unidos. Existe no país uma terapia parecida, aprovada em janeiro de 2024, mas ela é para câncer de próstata — não para esse tipo de tumor.
E vale dizer com todas as letras: isso não é "peptídeo" de farmácia de manipulação, nem nada que se aplique em casa. É medicina nuclear, feita dentro de hospital, com equipe treinada, equipamento próprio e cálculo de dose de radiação. Se alguém oferecer "um peptídeo com o mesmo mecanismo" fora de um serviço de medicina nuclear, isso não existe.
As fontes
- Estudo publicado na The Lancet, 2026 — https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42392118/
- Comunicado da empresa sobre a recusa do FDA, 10/08/2026 — https://www.itm-radiopharma.com/news/press-releases/press-releases-detail/itm-receives-complete-response-letter-for-177lu-edotreotide-itm-11-763/
- Aprovação da primeira terapia radioligante no Brasil (Anvisa, 29/01/2024) — https://sindusfarma.org.br/noticias/empresas-foco/exibir/21867-anvisa-aprova-primeira-terapia-alvo-radioligante-para-tratamento-do-cancer-no-brasil
Este texto é informativo e não substitui a orientação do seu médico.
