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Para médicos11 de agosto de 2026

Retatrutida: −28,3% de peso em comunicado de imprensa — e nenhum fase 3 publicado

Quatro ensaios fase 3 mostram até 28,3% de perda de peso com a retatrutida — nenhum deles publicado em revista revisada por pares, e nenhum país aprovou o produto.

Em 23/07/2026 a Eli Lilly divulgou os resultados dos ensaios TRIUMPH-2 e TRIUMPH-3 e anunciou que pretende submeter o pedido de aprovação à FDA no 1º trimestre de 2027. No dia seguinte, 24/07/2026, a Anvisa veio a público afirmar que a retatrutida "não está aprovada para uso em nenhum lugar do mundo" e que a empresa sequer protocolou pedido de registro — nem no Brasil, nem em qualquer agência internacional.

Os dois fatos são verdadeiros ao mesmo tempo. É exatamente nessa fresta que o paciente chega ao consultório com um frasco comprado na internet.


O estudo

O programa TRIUMPH soma quatro ensaios fase 3 randomizados e controlados por placebo, com aproximadamente 5.885 participantes.

  • TRIUMPH-1 (n=2.339, 80 semanas): −28,3% de peso corporal na dose de 12 mg contra −2,2% no placebo; 45,3% dos participantes do braço de 12 mg perderam ≥30% do peso.
  • TRIUMPH-2 (n=1.152, diabetes tipo 2 com obesidade/sobrepeso, 80 semanas): −20,8% (12 mg) contra −4,0% no placebo; HbA1c −1,6 ponto percentual contra −0,2, a partir de basal de 7,7%.
  • TRIUMPH-3 (n=1.949, obesidade grave com doença cardiovascular estabelecida, 80 semanas): −22,6% (12 mg) contra −3,2%; triglicerídeos −37,0%; não-HDL −16,5%; pressão sistólica −9,3 mmHg; PCR ultrassensível −51,2%.
  • TRIUMPH-4 (n=445, obesidade com osteoartrite de joelho, 68 semanas): −28,7% (12 mg) contra −2,1%; dor pelo WOMAC −4,4 pontos (−74,3%) contra −2,4 pontos (−40,3%), a partir de basal de 6,0.

Nenhum desses números vem acompanhado de p-valor ou intervalo de confiança de 95%. Todos foram divulgados em comunicado corporativo — e nenhum dos quatro ensaios fase 3 foi publicado em revista revisada por pares até esta data.

O outro lado

A tolerabilidade tem uma conta a pagar, e ela cresce com a dose.

  • Eventos gastrintestinais (TRIUMPH-1, 12 mg): náusea 42,4% contra 14,8% no placebo; vômito 25,3% contra 4,8%; diarreia 32,0% contra 13,5%; constipação 26,1% contra 10,9%.
  • Descontinuação por evento adverso: 11,3% no braço de 12 mg do TRIUMPH-1 (placebo 4,9%) e 18,2% no braço de 12 mg do TRIUMPH-4 (placebo 4,0%) — quase 1 em cada 5 participantes.
  • Disestesia: relatada em 8,8%–20,9% dos tratados no TRIUMPH-4 contra 0,7% no placebo; 7,3% contra 0,7% no TRIUMPH-2; 6,4% contra 1,3% no TRIUMPH-3. Não é um achado do repertório clássico dos agonistas de GLP-1.

Por que importa

A retatrutida é o primeiro agonista triplo — GIP, GLP-1 e receptor de glucagon — a atravessar a fase 3 em obesidade. O braço glucagon é o que empurra o gasto energético, e é o suspeito mais plausível tanto pela magnitude da perda de peso quanto pela carga de eventos gastrintestinais e pela disestesia.

Na prática de consultório isso muda a conversa. O paciente já não pergunta se existe algo melhor que a tirzepatida: ele chega com o número na mão.

O detalhe que engana

Os "30,3%" que circulam na imprensa não são o resultado do ensaio. Esse valor vem de uma extensão pré-especificada até 104 semanas, restrita a um subgrupo de 532 participantes com IMC ≥35 kg/m².

O desfecho do estudo — 80 semanas, população completa — foi 28,3%. Quem cita 30,3% como resultado principal está comparando um subgrupo mais grave e acompanhado por mais tempo contra o dado inteiro dos concorrentes.

Limitações

Gradação de evidência:

  • B (Moderada) para eficácia em perda de peso: efeito grande, consistente e replicado em quatro ensaios randomizados de bom tamanho — mas existindo apenas na forma de comunicado da empresa patrocinadora.
  • D (Experimental) para uso clínico hoje: não existe produto aprovado em nenhum país.

O que ainda não se sabe:

  • Desfecho cardiovascular duro: o TRIUMPH-3 mediu fatores de risco (lipídios, pressão, PCR), não eventos como infarto ou AVC.
  • Manutenção: não há dado publicado sobre o que acontece com o peso após a suspensão.
  • Comparação direta: não há head-to-head fase 3 publicado contra tirzepatida ou CagriSema.
  • Peer review: o único dado revisado por pares continua sendo o fase 2 (n=338), com −24,2% em 48 semanas na dose de 12 mg.

E o mais importante em termos de transportabilidade: nada disso se aplica a "retatrutida" comprada em site irregular. O que foi testado nos ensaios é um produto de identidade, dose e pureza controladas — o que circula no mercado cinza não tem nenhuma dessas garantias.

No Brasil

Sem registro na Anvisa e sem pedido de registro protocolado — nem aqui, nem em nenhuma agência internacional, conforme comunicado oficial de 24/07/2026. O que circula como retatrutida vem de sites irregulares e é apreendido nas fronteiras como contrabando; comercializar medicamento irregular é crime.

Consequência prática: não existe insumo legal para manipular, importar ou prescrever.

No antidoping, os agonistas de GLP-1 (semaglutida e tirzepatida) constam do Programa de Monitoramento da WADA para 2026 — monitorados, não proibidos. A retatrutida não é citada nominalmente.


Radar

  • Biológico ou medicamento? A molécula tem 41 aminoácidos no total, mas apenas 39 alfa-aminoácidos na cadeia principal. Em 30/09/2025 a corte federal do Distrito Sul de Indiana deu razão à FDA quanto ao critério dos "mais de 40", mas anulou a interpretação da agência sobre o que é "análogo a uma proteína" e devolveu a decisão para ser refeita. Em jogo: 12 anos de exclusividade (via BLA) contra 5 (via NDA).
  • A disputa se aproxima do desfecho. Reportagem de 05/08/2026 detalha as posições: a Lilly sustenta que "41 é claramente maior que 40"; a FDA sustenta que apenas os alfa-aminoácidos contam. A submissão está prevista para o 1º trimestre de 2027.
  • GLP-1 sob vigilância antidoping. Nas Olimpíadas de Inverno de 2026, marcadores de semaglutida e tirzepatida passaram a ser rastreados dentro e fora de competição. Seguem permitidos; o monitoramento existe desde 2024 para detectar padrões de uso indevido.

Conteúdo técnico para profissionais de saúde; não substitui julgamento clínico nem constitui recomendação de uso de produto sem registro sanitário.

Fontes

  1. https://investor.lilly.com/news-releases/news-release-details/lillys-triple-agonist-retatrutide-successful-two-additional
  2. https://www.prnewswire.com/news-releases/lillys-triple-agonist-retatrutide-delivered-powerful-weight-loss-in-pivotal-phase-3-obesity-trial-302778859.html
  3. https://investor.lilly.com/news-releases/news-release-details/lillys-triple-agonist-retatrutide-delivered-weight-loss-average
  4. https://www.ajmc.com/view/retatrutide-achieves-up-to-30-3-average-weight-loss-in-phase-3-triumph-1-trial
  5. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37366315/
  6. https://doi.org/10.1056/NEJMoa2301972
  7. https://www.goodwinlaw.com/en/insights/publications/2025/10/alerts-lifesciences-district-court-sets-aside-fda-interpretation
  8. https://www.biospace.com/fda/lilly-fda-retatrutide-biologic-dispute-comes-to-a-head-as-submission-nears
  9. https://agenciagov.ebc.com.br/noticias/202607/retatrutida-ainda-nao-esta-aprovada-para-uso-em-nenhum-lugar-do-mundo
  10. https://www.emjreviews.com/general-healthcare/news/glp-1ras-monitored-at-2026-winter-olympics/