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Para médicos09 de outubro de 2026

Retatrutida: 30,3% de perda de peso em 104 semanas — e a Anvisa diz que o que se vende aqui é ilegal

Os três ensaios fase 3 da retatrutida entregaram o maior efeito já medido em obesidade, mas existem só como topline de empresa — e a Anvisa afirma que a molécula não tem registro em nenhum país do mundo.

Na segunda-feira, 06/10/2026, a própria Eli Lilly voltou a público para avisar que não existe retatrutida legítima à venda em nenhum mercado do mundo. No mesmo mês, o maior número de perda de peso já medido num ensaio de obesidade circula em grupos de WhatsApp como se fosse produto de farmácia. Os dois fatos são verdadeiros ao mesmo tempo — e é nessa fenda que o prescritor se queima.

Este texto separa as duas coisas: o que os ensaios mediram, e o que existe juridicamente para prescrever no Brasil (nada).


O estudo

O TRIUMPH-1 (NCT05929066) randomizou 2.339 participantes em proporção 1:1:1:1 para retatrutida 4 mg, 9 mg, 12 mg ou placebo, por 80 semanas, em desenho duplo-cego.

Perda de peso em 80 semanas (estimand de eficácia): −19,0% (4 mg), −25,9% (9 mg), −28,3% (12 mg) vs. −2,2% no placebo. Na extensão pré-especificada de 104 semanas (n = 532, IMC basal ≥ 35, dose máxima tolerada): −30,3% no braço de 12 mg. — Eli Lilly, topline, 21/05/2026

Respondedores, no estimand de eficácia a 80 semanas:

  • Perda ≥ 25%: 27,8% (4 mg) · 52,9% (9 mg) · 62,5% (12 mg) · 2,2% (placebo)
  • Perda ≥ 30%: 15,3% · 37,9% · 45,3% · 0,5%
  • Perda ≥ 35%: 5,9% · 20,8% · 27,2% · 0,3%

Um ponto que precisa ser dito na cara: o comunicado não divulga p-valor. É topline de empresa, não artigo.

Os outros dois ensaios

O efeito se repetiu em duas populações diferentes, ambas em 80 semanas, duplo-cego com placebo:

  • TRIUMPH-2 (NCT05929079 — diabetes tipo 2 com sobrepeso/obesidade): peso −12,7% (4 mg), −19,1% (9 mg), −20,8% (12 mg) vs. −4,0% no placebo. HbA1c (basal 7,7%): −1,4%, −1,6% e −1,5% vs. −0,2% no placebo.
  • TRIUMPH-3 (NCT05882045 — obesidade grave com doença cardiovascular estabelecida): peso −21,6% (9 mg) e −22,6% (12 mg) vs. −3,2% no placebo.

O outro lado

Nenhum dos três ensaios está publicado em revista com revisão por pares. Até hoje, o fase 3 da retatrutida existe como comunicado de empresa e apresentação de congresso (ADA). Não há artigo onde um revisor independente tenha conferido as análises — e não houve p-valor divulgado.

Não há desfecho cardiovascular medido. Mesmo no TRIUMPH-3, que recrutou pacientes com doença cardiovascular estabelecida, o desfecho é peso, não evento.

A tolerabilidade cobra o preço. No braço de 12 mg do TRIUMPH-1:

  • Náusea: 42,4% vs. 14,8% no placebo
  • Vômito: 25,3% vs. 4,8%
  • Diarreia: 32,0% vs. 13,5%
  • Constipação: 26,1% vs. 10,9%
  • Descontinuação por evento adverso: 11,3% vs. 4,9%

E no TRIUMPH-3 — a população mais doente — a descontinuação por evento adverso chegou a 13,5% no braço de 12 mg (placebo 4,8%). Quase 1 em cada 7 dos pacientes com doença cardiovascular não terminou o estudo.


Por que importa

É o efeito de maior magnitude já medido em obesidade farmacológica. E, ainda assim, nada disso autoriza uma prescrição, porque não existe produto registrado para prescrever. A assimetria entre o tamanho do número e a inexistência do produto é justamente o que alimenta o mercado irregular.

O detalhe que engana

Os 30,3% vêm do estimand de eficácia — a estimativa do efeito "como se todos os randomizados tivessem permanecido na intervenção". O treatment-regimen estimand, que mede o efeito médio independentemente de adesão, dá números menores:

Desfecho Estimand de eficácia Treatment-regimen
12 mg, 80 semanas −28,3% −25,0%
12 mg, 104 semanas −30,3% −29,9%
Placebo, 80 semanas −2,2% −3,9%

Quem repassa "30%" sem dizer de qual estimand está falando está citando o melhor dos dois números.

Segundo detalhe, menos comentado: na extensão de 104 semanas o braço placebo foi migrado para dose máxima tolerada e chegou a −19,2%. Aquele "placebo" de 104 semanas já não é placebo — é um braço tratado com atraso. Comparar 30,3% contra 19,2% não é comparar droga contra nada.


Limitações

  • Não é medicamento. É molécula em investigação. Sem registro em qualquer agência sanitária do planeta, sem bula, sem dose aprovada, sem via legal de manipulação.
  • O cronograma é 2027. A Lilly declara estar fechando o pacote de CMC e planeja submeter o pedido nos EUA no 1º trimestre de 2027, para obesidade, apneia obstrutiva do sono e dor por osteoartrite de joelho.
  • Transportabilidade: os perfis de eficácia e de eventos gastrointestinais acima vêm de titulação protocolada, com escalonamento e acompanhamento intensivos. Fora desse cenário, o perfil simplesmente não foi medido.
  • A dose "de rua" não é a dose do ensaio. O teto testado nos três TRIUMPH é 12 mg.

No Brasil

Alerta oficial da Anvisa, de 24/07/2026: a retatrutida "ainda NÃO está aprovada para uso em nenhum lugar do mundo" e não houve pedido de registro no país. A agência afirma que o produto é vendido em sites irregulares e apreendido nas fronteiras brasileiras como contrabando, e que o comércio de medicamentos irregulares é crime pelo Código Penal (Decreto-Lei nº 2.848/1940).

A frase da Anvisa que todo prescritor deveria ter decorada:

"não há garantia de que o produto contenha realmente o princípio ativo declarado"

Antidoping e o risco real do frasco

Para o atleta, o risco prático não é a molécula — é o conteúdo do frasco. Em 14/09/2026, a TGA australiana alertou sobre um produto rotulado como retatrutida que, no laboratório, não continha retatrutida nenhuma: continha semaglutida não declarada, em cerca de 8 vezes a concentração dos produtos de semaglutida já avaliados pela agência. O paciente teve vômito incontrolável, sofreu ruptura de esôfago e precisou de internação. Robyn Langham, consultora médica-chefe da TGA, resumiu: o maior risco dos produtos peptídicos não aprovados é "não saber o que há no frasco".


Grau de evidência: B (Moderada)

Três ensaios fase 3 grandes, randomizados, duplo-cegos e com placebo, com efeito consistente e de magnitude alta em três populações distintas. Rebaixado de A porque, até esta data, os resultados existem apenas como topline de empresa, sem publicação revisada por pares que eu tenha conseguido verificar, sem p-valor divulgado e sem qualquer desfecho cardiovascular. Para uso clínico no Brasil, o grau operacional é irrelevante: não há produto registrado.

Conteúdo técnico destinado a profissionais de saúde; não constitui recomendação de prescrição, e a molécula não possui registro sanitário no Brasil.

Fontes

  1. https://www.prnewswire.com/news-releases/lillys-triple-agonist-retatrutide-delivered-powerful-weight-loss-in-pivotal-phase-3-obesity-trial-302778859.html
  2. https://investor.lilly.com/news-releases/news-release-details/lillys-triple-agonist-retatrutide-successful-two-additional
  3. https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/noticias-anvisa/2026/retatrutida-ainda-nao-esta-aprovada-para-uso-em-nenhum-lugar-do-mundo
  4. https://www.abc.net.au/news/2026-09-14/tga-peptide-warning-retatrutide-torn-oesophagus/107143510
  5. https://ajmc.com/view/5-things-to-know-about-retatrutide-the-trillion-dollar-drug
  6. https://futurodasaude.com.br/lilly-alertando-sobre-medicamento-ainda-nao-aprovado-retatrutida