Aprovaram a injeção que dispensa a retirada de sangue — e o que ninguém mediu
Um remédio novo evita a retirada repetida de sangue numa doença rara — mas o estudo não testou se ele evita trombose.
Existe uma doença do sangue chamada policitemia vera: a medula fabrica glóbulos vermelhos demais, o sangue engrossa e o risco de entupir um vaso sobe. O tratamento clássico é tirar sangue mesmo, na veia, de tempos em tempos — como uma doação, só que terapêutica, repetida e cansativa.
Na sexta-feira passada (28/08/2026), a agência americana FDA aprovou um remédio novo, a rusfertida, uma injeção semanal embaixo da pele que imita um hormônio do próprio corpo chamado hepcidina. Ela segura o ferro e faz a medula produzir menos glóbulos vermelhos — o mesmo efeito da retirada de sangue, sem a agulha no braço a cada poucas semanas.
O que se sabe
O estudo sorteou 293 pacientes entre o remédio e um placebo (injeção sem princípio ativo). Ninguém sabia quem estava tomando o quê, o que é o desenho mais confiável que existe.
76,9% de quem tomou rusfertida passou o período sem precisar de retirada de sangue, contra 32,9% de quem tomou placebo.
Além disso:
- Sangue mais fino: 62,6% mantiveram o hematócrito abaixo de 45%, contra 14,4% no placebo.
- Cansaço: houve melhora significativa na medida de fadiga.
- Efeitos colaterais mais comuns: reação no lugar da injeção (56% das pessoas) e anemia (16%).
O que NÃO se sabe
O estudo mediu quantas retiradas de sangue foram evitadas. Não mediu se o remédio evita AVC, trombose ou morte.
Faz sentido imaginar que evite, porque manter o sangue mais fino reduz esse risco em geral. Mas imaginar não é o mesmo que ter medido — e a diferença entre "você vai furar o braço menos vezes" e "você vai ter menos derrame" é enorme. Só a primeira frase tem estudo atrás.
Também vale dizer: ninguém comparou a rusfertida com os remédios que já existem para a doença. E o estudo completo ainda não apareceu publicado por inteiro numa revista científica revisada por outros pesquisadores — o que circula são a apresentação em congresso e os comunicados das empresas.
Cuidado
Em 2021, o desenvolvimento do remédio chegou a ser suspenso pela FDA porque apareceram tumores de pele em camundongos de laboratório. A suspensão foi retirada poucas semanas depois, com regras novas de monitoramento. Ainda assim, segurança de longo prazo é a pergunta em aberto: quem usar por anos precisa de acompanhamento da pele.
A bula também pede exame de sangue a cada 2 a 4 semanas por causa do risco de plaquetas altas, e o remédio não pode ser usado na gravidez.
Uma coisa importante
Isso não é peptídeo de academia, de emagrecimento ou de "bem-estar". É um medicamento de alto custo para uma doença rara do sangue, aprovado nos Estados Unidos e prescrito por hematologista. No Brasil, não localizamos registro na Anvisa até hoje (02/09/2026).
Fontes: comunicado da Takeda, 28/08/2026 — https://www.takeda.com/newsroom/newsreleases/2026/fda-approval-mimrylo/ · AJMC, 2026 — https://www.ajmc.com/view/fda-approves-rusfertide-to-treat-erythrocytosis-in-polycythemia-vera
Este texto é informativo e não substitui a consulta com seu médico.
Fontes
- https://www.takeda.com/newsroom/newsreleases/2026/fda-approval-mimrylo/
- https://www.ajmc.com/view/fda-approves-rusfertide-to-treat-erythrocytosis-in-polycythemia-vera
- https://www.cancernetwork.com/view/fda-approves-rusfertide-in-polycythemia-vera
- https://www.onclive.com/view/fda-lifts-hold-on-rusfertide-clinical-development-program
