Semaglutida no Alzheimer: os evoke deram negativo — e os biomarcadores melhoraram assim mesmo
Nos ensaios evoke e evoke+ (n=3.808), a semaglutida oral 14 mg não retardou a progressão do Alzheimer inicial em 104 semanas — e marcadores biológicos caíram até 10% sem qualquer tradução clínica.
Saiu no The Lancet a publicação completa dos ensaios evoke e evoke+ — os dois maiores testes já conduzidos da hipótese de que o agonismo de GLP-1 protege o cérebro. Foram 3.808 pacientes com doença de Alzheimer inicial confirmada por biomarcador, 104 semanas de semaglutida oral 14 mg em dose flexível contra placebo.
O resultado é negativo. E, para quem prescreve, o que importa não é a manchete — é a anatomia da falha, porque ela desmonta um argumento de venda que já circula no consultório: "melhorou o biomarcador".
Grau de evidência: A (Forte) — para a AUSÊNCIA de benefício clínico.
O estudo
Dois ensaios de fase 3 gêmeos, randomizados, duplo-cegos, controlados por placebo, em pacientes de 55 a 85 anos com comprometimento cognitivo leve ou demência leve por doença de Alzheimer confirmada por biomarcador. Desfecho primário: variação do CDR-SB em 104 semanas.
evoke: diferença estimada de −0,08 (IC95% −0,35 a 0,20; p = 0,57), semaglutida n=928 vs placebo n=927. evoke+: diferença estimada de +0,10 (IC95% −0,17 a 0,38; p = 0,46), n=976 vs n=977. Cummings JL, Atri A, Sano M, et al. The Lancet, 2026 · doi 10.1016/S0140-6736(26)00459-9
Outros achados relevantes:
- Progressão nos dois braços: variação média do CDR-SB de 2,2–2,3 pontos com semaglutida e 2,1–2,3 pontos com placebo.
- Desfechos secundários: as análises cognitivas e funcionais não mostraram diferença entre os grupos.
- Biomarcadores: reduções de até 10% em marcadores selecionados — sem tradução clínica.
- Segurança: eventos adversos emergentes em 91,2% (1.729/1.896) com semaglutida contra 84,8% (1.613/1.902) com placebo, com o perfil gastrointestinal já conhecido da molécula.
- Extensão: o período aberto de 1 ano foi encerrado após a leitura de eficácia.
A conclusão dos autores é literal: a semaglutida oral não foi eficaz em retardar a progressão clínica na doença de Alzheimer inicial.
O outro lado
O contra-argumento existe e merece ser lido com atenção, não descartado. O ensaio ELAD, com liraglutida em doença de Alzheimer leve a moderada (Nature Medicine, 2026; n=204, participantes sem diabetes), é o dado que sustenta quem ainda defende a classe.
Só que o ELAD também falhou no desfecho primário:
- Metabolismo cerebral de glicose (FDG-PET): diferença de −0,17 (IC95% −0,39 a 0,06; p = 0,14).
- ADCS-ADL: −0,58 (IC95% −3,13 a 1,97; p = 0,65).
- CDR-SoB: −0,06 (IC95% −0,57 a 0,44; p = 0,81).
O que sobrou foi um desfecho secundário — ADAS-Exec: 0,15 (IC95% 0,03–0,28; p = 0,01) — e uma redução de atrofia por análise voxel a voxel. Na cobertura do Alzforum, Lon Schneider avaliou que os tamanhos de efeito dos desfechos exploratórios apresentados eram pequenos demais para serem relevantes na prática; as curvas cognitivas se sobrepunham amplamente, e o próprio investigador principal reconheceu que o estudo não tinha poder estatístico para detectar benefício nesses desfechos.
Traduzindo: o "outro lado" é um primário negativo com secundários favoráveis num estudo pequeno. Isso não é evidência de eficácia — é geração de hipótese. E a hipótese acabou de ser testada em 3.808 pessoas.
Por que importa
Este é o caso didático mais caro da década sobre desfecho substituto. Marcadores biológicos se moveram até 10% na direção "certa" e o paciente não andou um milímetro. Toda vez que uma apresentação de produto mostrar um gráfico de biomarcador em vez de uma curva de desfecho clínico, este é o precedente a invocar.
O detalhe que engana
O braço placebo progrediu apenas cerca de 2,1 a 2,3 pontos de CDR-SB em dois anos. É uma coorte de declínio lento. Numa população assim, a leitura instintiva seria "o estudo não teve espaço para mostrar diferença". A leitura correta é o oposto: com 3.808 participantes, dois ensaios independentes e intervalos de confiança estreitos — que excluem qualquer efeito clinicamente relevante em ambas as direções —, o achado nulo é informativo, não indeterminado. Não é um estudo que "não conseguiu provar"; é um estudo que mediu bem e não encontrou.
Limitações
- Testou-se semaglutida oral 14 mg, dose flexível, por 104 semanas. Nada se conclui sobre a formulação injetável, doses maiores ou exposições mais longas.
- População de AD inicial confirmada por biomarcador. Não responde sobre prevenção primária em cognitivamente normais, nem sobre demência vascular ou mista.
- Não avaliou combinação com anticorpos antiamiloide.
- Transportabilidade: nenhum desses dados autoriza prescrever GLP-1 com finalidade cognitiva, nem sustenta a promessa de "neuroproteção" usada na venda de peptídeos fora do circuito farmacêutico.
No Brasil
- Rybelsus (semaglutida oral): registro na Anvisa desde 26/10/2020, indicado para o tratamento de adultos com diabetes mellitus tipo 2 inadequadamente controlado.
- 28/04/2026: a Anvisa aprovou a ampliação de indicação para redução de risco de eventos cardiovasculares em adultos com DM2, com base no estudo SOUL (n=9.650; redução relativa de 14% no risco de morte cardiovascular, infarto e AVC em 4 anos).
- 29/07/2026: a Anvisa registrou de uma só vez cinco novos medicamentos à base de semaglutida injetável (Owozy, Seemasun, Zempneo, Semavy e Orsema), indicados para diabetes.
- Não há, em nenhuma agência, indicação aprovada de semaglutida para cognição, memória ou prevenção de demência.
Radar de hoje
- FDA aprova radioligante no câncer de próstata hormônio-sensível (31/07/2026): lutécio-177 vipivotida tetraxetana associado a ARPI no mHSPC PSMA-positivo. No PSMAddition (n=1.144), rPFS com HR 0,72 (IC95% 0,58–0,90; p=0,002); a sobrevida global permanece imatura, com HR 0,80 (IC95% 0,63–1,01), sem significância estatística.
- GLP-1 também não funcionou no Parkinson: no Exenatide-PD3 (n=194 randomizados, 96 semanas, Reino Unido, The Lancet, 04/02/2025), o MDS-UPDRS parte III em OFF piorou 5,7 pontos (DP 11,2) com exenatida e 4,5 pontos (DP 11,4) com placebo — coeficiente ajustado 0,92 (IC95% −1,56 a 3,39; p=0,47). Dois neurodegenerativos, dois ensaios de fase 3, dois resultados negativos.
- Petrelintida avança para fase 3 sem publicação revisada por pares: a Zealand Pharma informa topline de 42 semanas da fase 2 ZUPREME-1 divulgado no 1º semestre de 2026 e início da fase 3 no 2º semestre de 2026. As publicações listadas pela empresa cobrem pré-clínico e fase 1b; os números da fase 2 seguem em comunicado.
Conteúdo técnico destinado a profissionais de saúde; não substitui julgamento clínico nem a bula aprovada.
Fontes
- https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41865758/
- https://www.nature.com/articles/s41591-025-04106-7
- https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41326666/
- https://www.alzforum.org/news/conference-coverage/liraglutide-trial-was-negative-four-years-ago-still-negative-today
- https://www.alzheimer-europe.org/news/results-evoke-and-evoke-trials-show-no-effect-oral-semaglutide-ad-progression
- https://www.alz.org/news/2025/alzheimers-association-statement-oral-semaglutide-phase-3-topline-data-release
- https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/medicamentos/novos-medicamentos-e-indicacoes/rybelsus-semaglutida-novo-registro
- https://www.prnewswire.com/br/comunicados-para-a-imprensa/anvisa-aprova-rybelsus-semaglutida-oral-da-novo-nordisk-para-reducao-do-risco-cardiovascular-em-adultos-302756039.html
- https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias-ms/2026/julho/anvisa-registra-cinco-novos-medicamentos-a-base-de-semaglutida
- https://www.urologytimes.com/view/fda-approves-lutetium-lu-177-vipivotide-tetraxetan-for-psma-positive-mhspc
- https://discovery.ucl.ac.uk/id/eprint/10204617/
- https://www.michaeljfox.org/news/exenatide-glp-1-drug-shows-no-impact-parkinsons-symptoms
- https://www.zealandpharma.com/pipeline/petrelintide/
