A caneta do diabetes não protegeu o cérebro — e o teste foi o maior já feito
O maior estudo já feito com semaglutida em Alzheimer inicial acompanhou 3.808 pessoas por 2 anos: os exames melhoraram um pouco, a memória não.
Se você já ouviu que "a caneta do diabetes também protege o cérebro" ou que "quem usa esse tipo de remédio tem menos risco de demência", vale saber: essa ideia acabou de ser testada do jeito mais rigoroso que existe. E não se confirmou.
O que foi feito
Dois estudos grandes, chamados evoke e evoke+, acompanharam 3.808 pessoas com Alzheimer em fase inicial durante 2 anos. Metade tomou semaglutida em comprimido (14 mg). A outra metade tomou um comprimido idêntico, mas sem remédio dentro — o placebo. Ninguém, nem paciente nem médico, sabia quem estava em qual grupo.
No fim dos dois anos, os dois grupos pioraram praticamente na mesma velocidade. A diferença ficou tão próxima de zero que os pesquisadores concluíram: o remédio não retardou a doença.
Isso foi publicado na revista médica The Lancet, uma das mais rigorosas do mundo, em 2026.
O detalhe que engana
Alguns exames de sangue ligados ao Alzheimer até melhoraram um pouco com o remédio — quedas de até 10% em certos marcadores.
Parece bom. Só que isso não virou memória preservada, nem autonomia mantida, nem qualquer ganho no dia a dia da pessoa.
É importante entender essa diferença, porque é exatamente nela que a propaganda se apoia:
- Exame que melhora: um número mudou no laboratório.
- Pessoa que melhora: ela esquece menos, se vira melhor sozinha, mantém a rotina.
Só o segundo importa. E ele não aconteceu.
O que ainda não se sabe
- O estudo testou o comprimido de 14 mg, em quem já tem Alzheimer inicial, por 2 anos. Não responde sobre doses maiores, sobre a versão injetável, nem sobre usar muito antes de os sintomas aparecerem.
- Um estudo menor, com outro remédio da mesma família (liraglutida, 204 pessoas), também falhou no objetivo principal. Sobraram resultados secundários que especialistas consideraram pequenos demais para servir de prova — e os próprios autores reconheceram que o estudo não tinha tamanho para responder isso.
Cuidado
No Brasil, a semaglutida em comprimido é aprovada pela Anvisa para diabetes tipo 2 (desde outubro de 2020) e, desde abril de 2026, também para reduzir o risco de problemas cardiovasculares em quem tem diabetes.
Não existe aprovação — aqui nem em nenhum outro país — para memória, cognição ou prevenção de demência.
Na prática, isso significa:
- Não comece, aumente ou mantenha um remédio dessa classe pensando em proteger o cérebro.
- Não compre peptídeo fora de farmácia com essa promessa. Se o argumento de venda é "protege o cérebro", ele acaba de perder o maior teste já feito.
- Sim, quem tem diabetes ou obesidade e usa o medicamento com indicação e acompanhamento deve continuar conversando com o médico normalmente — nada aqui muda essas indicações.
Em uma frase
Para diabetes e para peso, a evidência é sólida. Para o cérebro, o maior teste já feito deu negativo.
Converse sempre com seu médico antes de qualquer decisão sobre medicamentos.
Fontes
- https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41865758/
- https://www.alzheimer-europe.org/news/results-evoke-and-evoke-trials-show-no-effect-oral-semaglutide-ad-progression
- https://www.alz.org/news/2025/alzheimers-association-statement-oral-semaglutide-phase-3-topline-data-release
- https://www.nature.com/articles/s41591-025-04106-7
- https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/medicamentos/novos-medicamentos-e-indicacoes/rybelsus-semaglutida-novo-registro
- https://www.prnewswire.com/br/comunicados-para-a-imprensa/anvisa-aprova-rybelsus-semaglutida-oral-da-novo-nordisk-para-reducao-do-risco-cardiovascular-em-adultos-302756039.html
