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Para médicos21 de outubro de 2026

Zenagamtida: a revisão do Annals põe −23,9% no topo — e o número vem de um estudo de um centro só

O fase 2 do Lancet sustenta o controle glicêmico no DM2; o −23,9% de peso que lidera a revisão do Annals vem de um fase 1b/2a de um centro, com abandono alto.

O ex-amycretin agora se chama zenagamtida — agonista unimolecular dos receptores de GLP-1 e amilina, da Novo Nordisk. Em 06/10/2026, a empresa registrou o AMBIENCE, fase 3 de desfecho cardiovascular com cerca de 8.500 pessoas. No mesmo mês, a revisão sistemática do Annals of Internal Medicine colocou a molécula no topo da tabela de perda de peso.

Vale olhar de onde vem cada número.


O estudo

Dois ensaios de fase 2, duplo-cegos, controlados por placebo, de 36 semanas, em 83 centros de 11 países. Adultos com diabetes tipo 2 em metformina, com ou sem iSGLT2, HbA1c basal média de 7,8%.

Dado-chave: zenagamtida subcutânea 40 mg/semana reduziu a HbA1c em 1,7% — diferença de −1,56% vs placebo (IC95% −2,05 a −1,07; p<0,0001). Mora P et al., Lancet, 2026.

Versão subcutânea semanal

  • Randomizados: 262 (225 zenagamtida × 37 placebo), seis doses de 0,4 a 40 mg.
  • Menor dose (0,4 mg): HbA1c −0,9%; diferença vs placebo −0,77% (p=0,0021).
  • Maior dose (40 mg): HbA1c −1,7%; diferença −1,56% (p<0,0001).
  • Eventos adversos graves: 21 de 261 (8%), distribuídos entre os braços, sem óbitos.
  • Peso: o topline divulgado pela empresa (não é o desfecho primário) fala em até −14,5% vs −2,6% no placebo.

Versão oral diária

  • Randomizados: 186 (6, 25 ou 50 mg, ou placebo).
  • 6 mg: HbA1c −0,9%; diferença −0,5% (p=0,033).
  • 50 mg: HbA1c −1,4%; diferença −1,09% (p<0,0001).
  • Gastrointestinais: 47% no 50 mg vs 23% no placebo.

Grau de evidência para controle glicêmico no DM2: B (Moderada) — RCTs de fase 2 bem desenhados, financiados e coassinados pela fabricante.


O outro lado

O −23,9% (subtraído do placebo) que lidera a revisão do Annals — à frente da retatrutida (−22,1%) e da tirzepatida (−19,0%) — vem do fase 1b/2a em obesidade:

  • 125 participantes repartidos em cinco partes de dose;
  • um único centro, em San Antonio (EUA);
  • desfecho primário de segurança, não de peso;
  • nas palavras dos próprios autores, "um grande número de participantes" abandonou o estudo.

A própria revisão reconhece que a heterogeneidade dos estudos impediu meta-análise.


Por que importa

É a primeira molécula única que ativa GLP-1 e amilina a chegar à fase 3 em versão injetável e oral, com programa em diabetes, obesidade e desfecho cardiovascular. É candidata real à próxima geração da classe.

O detalhe que engana

Na tabela da revisão, o −23,9% de um fase 1b/2a de um centro aparece na mesma lista que o −19,0% da tirzepatida, que vem de fases 3 multicêntricas. "Numericamente maior" não é "maior". Para obesidade, a evidência hoje é C (Limitada).


Limitações

  • Duração: 36 semanas, nenhum desfecho duro. O AMBIENCE tem término estimado em setembro de 2030.
  • Placebo pequeno: 37 participantes no estudo subcutâneo e 30 no oral.
  • Tolerabilidade: efeitos gastrointestinais dose-dependentes.
  • Transportabilidade: DM2 com HbA1c entre 7% e 10%, sem insulina. Não vale automaticamente para obesidade sem diabetes nem para pacientes insulinizados.

No Brasil

A zenagamtida não tem registro na Anvisa — é experimental, está em fase 3 e não foi aprovada em nenhum país. Qualquer frasco vendido hoje com esse nome é irregular e sem garantia de conteúdo.

Contexto regulatório: em 14/10/2026 a Anvisa anunciou a RE nº 4.035 (de 09/10), que manda apreender retatrutida e tirzepatida sem registro vendidas em sites.


Radar

  • JAMA e o mercado paralelo: matéria de 09/10/2026 discute por que cresce a venda online de retatrutida e zenagamtida, duas moléculas não aprovadas, e os riscos de quem compra.
  • Zenagamtida no rim: dose única de 0,3 mg em 42 pessoas (7 por grau de insuficiência renal, até doença renal terminal) teve exposição semelhante à da função renal normal. Os autores, da Novo, sugerem que não precisa ajuste de dose — mas dose única e baixa não substitui dado de uso crônico.
  • MOTS-c e o ovário envelhecido: em células da granulosa humanas envelhecidas e óvulos de camundongas idosas, o MOTS-c melhorou a bioenergética e a maturação, sem chegar ao nível de animais jovens. Não testou fertilização, embrião nem nascimento — evidência D (Experimental).

Referências


Conteúdo informativo para profissionais de saúde; não substitui avaliação clínica individual nem bula aprovada.

Fontes

  1. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42532080/
  2. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42532079/
  3. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42673585/
  4. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40550231/
  5. https://www.healio.com/news/endocrinology/20251125/amycretin-reduces-weight-hba1c-in-phase-2-trial-of-patients-with-diabetes
  6. https://clinicaltrials.gov/study/NCT07861100
  7. https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2026-10/anvisa-proibe-canetas-emagrecedoras-sem-registro-vendidas-na-internet
  8. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42853576/
  9. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42443140/
  10. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42895211/
  11. https://doi.org/10.1016/S0140-6736(26)01248-1
  12. https://doi.org/10.1016/S0140-6736(26)01247-X
  13. https://doi.org/10.7326/ANNALS-25-05519
  14. https://doi.org/10.1016/S0140-6736(25)01185-7
  15. https://doi.org/10.1001/jama.2026.20514
  16. https://doi.org/10.1111/dom.71096
  17. https://doi.org/10.1530/RAF-26-0161